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terça-feira, 3 de setembro de 2013

De um Outro a outro

Todos os dias escutamos das pessoas ao nosso redor, nos telejornais, que os jovens estão sem referências, que as instituições, como a política, educação, igreja, estão falidas etc. Como os analistas são cidadãos e profissionais são chamados a dar uma resposta diante desse quadro na atualidade.
 
O que a psicanálise tem a dizer?
 
Encontramos no Seminário, livro 16 de Lacan referenciais importantes. Ali ele fala da questão da queda do ideal paterno em nossa civilização. Para ele se trata da civilização (mais amplo) e não da cultura, pois se a civilização era regida pelo pai simbólico que regulava o gozo na atualidade não é mais o Outro, e sim os outros que fazem essa função. A toxicomania nos traz um exemplo de como diante da queda do ideal paterno os sujeitos, desbussolados, recorrem a outros para lhe dar algum referencial, nesse caso a nomeação "sou toxicômano" dá um lugar no mundo, um pertencimento a um grupo, ainda que a compulsão pelo drogar-se acaba levando  sujeito a graves danos no imaginário - emagrecimento, péssimas condições de higiene, vulnerável a agressões físicas e sexuais e inúmeras outras.
 
O que pode a psicanálise aí?
 
Oferecer escuta a esse sujeitos, não na posição de julgá-lo, ou interna-lo de maneira forçada, compulsoriamente, e sim se oferecer a ajuda-lo, em sua demanda, e a construiu um outro lugar no mundo a partir da relação transferencial,  e não mais da droga. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

"Sou toxicômano" - uma nomeação

Por que tantos usuários de drogas ficam fixados na nomeação "sou toxicômano", "sou alcóolatra", "sou crackeiro"?
A resposta a essa pergunta nos ajuda a pensar sobre o que a sociedade pode fazer em relação a esses sujeitos.
Se o pensamos como criminosos, mau-caráter, a solução é policialesca, como muito vemos acontecer em diversas cidades pelo Brasil. Contudo, se pensamos que além de um problema social falamos de um problema de saúde pública, a solução se coloca pela via do tratamento.
E aqui não falamos de uma internação compulsória, que passa ao largo do desejo do sujeito de se tratar. O importante é compreender a função que a droga ocupa na economia de gozo para cada sujeito em particular.
Para a psicanálise  a nomeação "sou toxicômano" é uma resposta a deflação do Nome-do-Pai, ou seja, sua falta de eficácia como significante que nomeie o gozo, que retire o sujeito da posição de objeto de gozo da mãe. Assim, o sujeito fica a procura de algo que o nomeie e encontra na adicção uma identidade, um pertencimento  um grupo social.
"Sou toxicômano" é uma identificação bruta a um significante, "uma resposta que torna o outro consistente de novo e que pretende uma recuperação de gozo", sendo que essa recuperação de gozo ocorre por fora da medida fálica, pois a toxicomania acaba levando o sujeito a um gozo auto-erótico, fora do sentido e fora da fala (Sillitti, D. Sujeto, goce y modernidade: fundamentos de la clínica. Atuel - TyA, 1993, p. 56).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um curto circuito na fantasia


Acontece que na atualidade o sujeito do inconsciente, sujeito dividido, acaba submergindo quando os sujeitos se lançam no uso excessivo de drogas. Se antigamente o uso de drogas era marcado pelo simbolismo, pela busca de sentido, como o uso de drogas para buscar a espiritualidade, ou como símbolo da contracultura e da revolta, na atualidade há uma perda de sentido, há um vazio, é a era da toxicomania banalizada (Naparstek. F., 2011. Pharmacon 12).

O uso desmedido do álcool e de outras drogas é um ato de ruptura com o Outro (sexo) para fazer um com a droga; é um curto circuito na fantasia, uma ruptura com o gozo sexual, fálico, em prol de um casamento com a droga. Para que o sujeito não tenha que lidar com sua própria falta, com sua divisão, ele coloca ali a droga, como um tampão.

Essa satisfação autoerótica que o sujeito obtém com a droga, causa a ilusão de que se está completo, de que não precisa mais de nada. Essa ilusão de completude acaba afastando os toxicômanos e alcoolistas de suas famílias, trabalho, amigos. É difícil para aqueles que estão em torno dos toxicômanos ou alcoolistas perceberem quando o uso se torna um abuso e quando estes precisam de tratamento, entender que o paciente passou de consumidor a consumido pelo objeto droga, produto da sociedade de consumo.

Não se trata de um trabalho fácil nem rápido quando o objetivo é tratar toxicômanos e alcoolistas. Não é simplesmente comunicar a ele que tem que parar de usar em função de sua saúde e de suas perdas. Mas a partir da redução, da redução de danos, ajudá-lo a ir se re-apropriando das dúvidas, das perdas, de sua própria divisão que é o que o caracteriza como sujeito do inconsciente.