sábado, 28 de agosto de 2010

“A moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna”. Em: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud

Nesse texto Freud expõe a luta entre a civilização e a satisfação pulsional.
Na nota do Editor assinala que esse assunto já foi aludido por Freud na carta à Fliess de 31 de maio de 1897, na qual ele escreve que “o incesto é anti-social e a civilização consiste na renúncia progressiva ao mesmo” e nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, em que Freud diz que: “a realização inversa que existe entre a civilização e o livre desenvolvimento da sexualidade”.
Retoma os aspectos sociológicos que foram discutidos nesse texto de 1908 em artigos posteriores como “O futuro de uma ilusão” (1927), “Por que a guerra?” (1933) e em “O mal-estar na civilização” (1930).
No início do artigo Freud distingue moral sexual normal de moral sexual civilizada para dizer que a civilização, ou a cultura, estabelecer restrições para que seja possível a vida em sociedade, o que acarreta diversos prejuízos aos indivíduos. A principal delas é o aumento da doença nervosa moderna.
Freud destaca que a origem das neuroses, expressão da doença nervosa moderna, é a repressão sexual, logo, os sintomas neuróticos são uma satisfação substitutiva da pulsão sexual recalcada.
Freud (1908, p.175) diz que a internalização da moral civilizada se dá ao longo do desenvolvimento do indivíduo com o progressivo recalque da pulsão sexual. A satisfação sexual através do auto-erotismo na infância, obtenção de prazer através do próprio corpo, é recalcada para dar lugar a satisfação genital e ao amor objetal. A moral sexual ‘civilizada’ é alcançada quando a satisfação sexual com fins reprodutiva é eleita como objetivo sexual.
Segundo Freud os neuróticos possuem uma organização "recalcitrante", pois a supressão das pulsões é apenas aparente, ou seja, o que é recalcado retorna na forma de sintomas.Os sintomas são satisfações substitutivas da pulsão recalcada.
Freud analisa que a contínua repressão sexual pelas exigências da civilização aumentará os casos de neurose, como resistência, fuga das pressões.
Ele destaca os prejuízos ou mesmo as neuroses causadas pelas restrições sexuais impostas antes do casamento, em que os jovens que são submetidos a abstinência sexual, e mesmo após este, posto que a relação sexual é concedida aos casais com fins reprodutivos. Destaca principalmente as mulheres que incitadas a preservarem sua castidade e moral, não conseguem se envolver afetivamente e eroticamente nos relacionamentos amorosos.
A neurose é definida como o retorno dos desejos ou da pulsão sexual recalcada que são hostis a civilização. Freud dá o exemplo de uma mulher se casou sem amar o marido. No esforço de amá-lo, de acordo com o ideal civilizatório, ela recalca todas suas idéias e sentimentos que vão contra ele. Mas como efeito disso surge uma doença nervosa, neurótica que lhe causa enormes prejuízos.
E, por fim, destaca que a restrição da atividade sexual causa um aumento do medo da morte e da angústia em existir. E pergunta se todo sacrifício de abrir mão da felicidade individual em prol da moral civilizada de uma comunidade vale a pena diante de tantos prejuízos causados?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Crack: Apocalipse químico

Retirado do site da ABEAD
Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas

O Crack têm se disseminado rapidamente. Essa droga é sete vezes mais potente que a
cocaína e também mais cruel e mortífera. O usuário chega a viciar no primeiro uso.

Desafeiçoado. Escondido pelo escuro da noite e feliz pela ilusão da droga. É tarde, e cada esquina vira boca de fumo. O crack tomou conta. Não se tem acepção de idades. São milhares de crianças, jovens e adultos encolhidos em qualquer canto, iluminados apenas por um palito de fósforo aceso. “A gente pensa que aqui quase não tem viciados em crack. Aí é que a gente se engana. Tem crianças usando crack até na escola.” Relata Jordão Vittor, 26, morador do bairro Santa Lúzia.
O crack é a mistura de cocaína refinada com bicarbonato de sódio que resulta em grãos que são fumados em cachimbos ou latas. Seu efeito pode ser de cinco a sete vezes mais potentes que a cocaína, entretanto, também é mais cruel e mortífero. Durante 10 minutos, no máximo, o usuário sente uma sensação eufórica e excitante, seguido de depressão, delírio e a necessidade de repetição da dose, quase instantaneamente.
P. tem somente 17 anos e já é viciado há dois, atualmente, usa cerca de 60 pedras de crack por dia. Todo sujo, usa dialetos, fala alto e olha de lado, mas não é agressivo, apesar de estar sob efeito da droga.
Ele é tão novo e já sem esperanças, sem expectativa de vida, sem rumo. “Eu fico bem quando uso. Depois percebo que não tenho vida, aí fumo de novo. Se eu morrer agora, vou morrer feliz”.
Em um passado bem recente, somente pessoas desprovidas de dinheiro é que eram dependentes do crack, já que é uma droga barata, custando de 5 a 10 reais a pedra. Hoje, esse perfil mudou. Agora as classes média e alta também são escravos do crack. “Antes era só na favela, hoje você vê os ‘playboys’ comprando a pedra”, alerta P.
Segundo o psiquiatra especialista em dependência e saúde mental Paulo Soares Gontijo o crescimento exagerado do consumo se deve ao fato do custo ser baixo e da mobilidade do tráfico. “Quanto mais barato, maior o consumo. Quanto mais consumo, maior a procura por tratamento”, explica.
Apesar de ser um valor relativamente baixo, o viciado começa a vender seus pertences, fazer trocas e até furtos já que existe um interesse compulsivo em usar outras pedras. “Tem pessoas que vende até o telhado da casa para comprar droga”, diz P.
Quando não há mais esperanças de uma vida melhor, os jovens buscam no efeito momentâneo do crack, um motivo para sorrir. “A meu ver isso acontece devido à falta de oportunidade, a falta de possibilidade de que um dia a vida possa melhorar, e se essa pessoa não tiver uma vida com estrutura familiar e social bastante firme, o que acontecerá é que ela logo cairá nessa armadilha chamada crack”, disse o Delegado Regional de Barreiras Dr. Jorge Aragão ao jornal Novo Oeste.
Em Barreiras, no Oeste da Bahia, o uso do crack não está tão disseminado quanto na capital baiana, Salvador, onde o consumo aumentou 140%. Em Brasília (DF) com aumento de apreensão de pedras de crack em 175% em apenas um ano; e Goiânia (GO), onde existem 50 mil usuários, cerca de 4% da população.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Relatório Mundial sobre Drogas 2010 revela tendências de novas drogas e de novos mercados

O Relatório Mundial sobre Drogas 2010, divulgado nesta quarta-feira pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mostra que o consumo de drogas está se deslocando em direção a tendências de novas drogas e de novos mercados. O cultivo de drogas está diminuindo no Afeganistão (ópio) e nos países andinos (coca), e o consumo de drogas tem se estabilizado nos países desenvolvidos. Entretanto, há sinais de aumento no consumo de drogas nos países em desenvolvimento, além de um aumento no consumo de substâncias do tipo anfetamina (ATS, na sigla em inglês) e no abuso de medicamentos sob prescrição em todo o mundo.

Redução do cultivo de ópio e de coca
O Relatório mostra que a oferta mundial dos dois tipos de drogas mais problemáticos - opiáceos e cocaína - continua em declínio. A área global de cultivo de ópio caiu quase um quarto (23%) nos últimos dois anos, e a produção de ópio deve cair drasticamente em 2010, devido a uma praga que pode destruir até um quarto da papoula do Afeganistão. O cultivo de coca, que diminuiu 28% na última década, manteve a tendência de queda em 2009. A produção mundial de cocaína diminuiu de entre 12% e 18% no período de 2007 a 2009.

O mercado de cocaína está mudando
O Relatório Mundial sobre Drogas 2010 revela que o consumo de cocaína tem diminuído significativamente nos Estados Unidos, nos últimos anos. O valor de varejo no mercado de cocaína nos Estados Unidos diminuiu cerca de dois terços na década de 1990, e cerca de um quarto na década passada. "Um dos motivos para a violência associada às drogas no México é que os carteis estão lutando por um mercado que está diminuindo", disse o Diretor Executivo do UNODC, Antonio Maria Costa. "Essa disputa interna é benéfica para a América, pois a escassez de cocaína está resultando em menores índices de dependência, preços mais elevados e menor pureza nas doses".
De certa forma, o problema atravessou o Atlântico: na última década, o número de usuários de cocaína na Europa duplicou, passando de 2 milhões, em 1998, para 4,1 milhões em 2008. Em 2008, o mercado europeu (estimado em US$ 34 bilhões) chegou a ser quase tão valioso quanto o mercado norte-americano (US$ 37 bilhões). A mudança na demanda acarretou uma mudança nas rotas de tráfico, com uma quantidade crescente de cocaína sendo traficada dos países andinos para a Europa, via África Ocidental. Isso está causando instabilidade na região. "Pessoas que consomem cocaína na Europa estão destruindo florestas nativas dos países andinos e corrompendo governos na África Ocidental", disse Costa.

Tratamento para dependentes é insuficiente
O Relatório Mundial sobre Drogas 2010 expõe uma grave falta de serviços de tratamento para usuários de drogas em todo o mundo. "Enquanto pessoas de países ricos podem pagar pelo tratamento, pessoas pobres e/ou países pobres estão enfrentando as piores consequências à saúde", alertou o chefe do UNODC. O relatório estima que, em 2008, apenas cerca de um quinto dos usuários de drogas dependentes receberam tratamento no ano passado - o que significa cerca de 20 milhões de pessoas dependentes de drogas sem receber tratamento adequado. "Já está na hora de haver acesso universal ao tratamento para as drogas", disse Costa.
Ele considera que a saúde é a peça-chave no controle de drogas. "A dependência é um problema de saúde tratável, não uma sentença morte. Os dependentes de drogas devem ser encaminhados para tratamento, não para a prisão. E o tratamento da dependência de drogas deve fazer parte dos serviços de saúde em geral".
Ele também fez um apelo por um maior respeito pelos direitos humanos. "Só porque as pessoas usam drogas ou estão atrás das grades, isso não elimina seus direitos. Faço um apelo aos países onde as pessoas são executadas por crimes relacionados com drogas, ou pior, são mortos a tiros por grupos de extermínio, para acabar com essas práticas".

Sinais de alerta nos países em desenvolvimento
Costa destacou os perigos do uso de drogas nos países em desenvolvimento. "As forças do mercado já moldaram as dimensões assimétricas da economia da droga: os maiores consumidores de drogas (os países ricos) impuseram aos países pobres (os principais locais de abastecimento e de tráfico) os maiores danos", disse Costa. "Os países pobres não estão em condições de absorver as consequências do aumento do consumo de drogas. Os países em desenvolvimento enfrentam uma crise iminente que poderá levar milhões de pessoas para o problema da dependência de drogas".
Ele citou como exemplos o crescimento do consumo de heroína na África Oriental, o aumento do uso de cocaína na África Ocidental e na América do Sul e o aumento na produção e no abuso de drogas sintéticas no Oriente Médio e no Sudeste Asiático. "Nós não vamos resolver o problema mundial da droga deslocando o consumo dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento", disse Costa.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Resenha do texto “A significação do falo” de Lacan (1958/1998)

O texto “A significação do falo” se situa no primeiro ensino de Lacan, em que predomina a lógica do significante e a relação da estrutura de linguagem à lógica do inconsciente.


Lacan se lança, principalmente na década de 50, em um retorno ao sentido de Freud, com o objetivo de desenvolver a afirmação de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ou seja, que a fala e a linguagem ocupam lugar central na experiência psicanalítica: “o sentido de um retorno a Freud é um retorno ao sentido de Freud” (1955/1998: 406).

Para tal, ele procura estabelecer a relação entre o Édipo e o simbólico, tal como ele nos apresenta no texto “A significação do falo”. Ali ele destaca que “o complexo de castração inconsciente tem uma função de nó“ (1958/1998: 692), ou seja, que é a partir do complexo de castração, ao operar uma função de lei, que o sujeito é inscrito na ordem simbólica, enquanto dividido, desejante. Da mesma forma, sob a barra da castração e do recalque, o sujeito se inscreve na ordem fálica, que exerce a função de regulação do gozo sexual.

Contudo, a apreensão do falo enquanto significante requer um passagem do sujeito do campo da demanda para o campo do desejo. E como isso acontece?

Lacan (1958/1998: 697-698) nos explica que: a) a demanda é algo distinto da satisfação por que clama, b) ela é demanda de uma presença e ausência, c) suas características são elididas na noção de frustração.

Assim, recorrendo ao O seminário, livro 4: as relações de objeto, destacamos a definição do conceito de frustração: “é considerada como um conjunto de impressões reais, vividas pelo sujeito num período de desenvolvimento em que sua relação com o objeto real está centrada habitualmente na imago dita primordial do seio materno” (Lacan, 1956-57/1998: 62). Ou seja, a frustração ocorre quando o objeto real – o seio – ou a mãe se ausentam. Quando a mãe não responde mais ao apelo da criança ela sai da estruturação e se torna real, se torna uma potência. Dessa forma, ocorre uma inversão da posição de objeto: o que até então eram objetos de satisfação tornam-se, por parte da potência materna, objeto de dom.

A transformação do objeto em simbólico, ou seja, a assunção do falo enquanto significante, requer que o sujeito se depare, para além da frustração com a mãe, com “um outro desejo”, que é o desejo do Pai: “é através do Édipo que o desejo genital é assumido e vem tomar lugar na economia subjetiva” (Lacan, 1957-58/1998: 371). É, portanto, por intermédio do desejo do Pai, e do significante falo, que se introduz o para-além da relação com a fala do Outro materno, ou seja, para além da demanda.

Assim, em relação à frustração, o pai proíbe a mãe – objeto real – ao filho, na medida em que intervém sobre essa relação incestuosa. No nível da privação, o pai é o objeto preferido em relação à mãe, desta forma o menino o elege como modelo, como ideal do eu, como aquele com quem passa a se identificar. E no que diz respeito à castração, trata-se de uma intervenção do pai real como uma ameaça imaginária sobre um falo imaginário, que ainda não alçou o valor simbólico, significante.

A passagem do campo da demanda para o campo do desejo é explicada de modo detalhado por Lacan (1957-58/1998: 197-203) quando ele apresenta os três tempos do complexo de Édipo. O primeiro tempo, da demanda, é caracterizado pela relação dual, imaginária, entre a criança e a mãe, em que a criança tem a ilusão de complementaridade com o corpo da mãe. Do mesmo modo, a criança se identifica de forma especular com o falo imaginário – objeto de desejo materno –, ela é o falo que falta à mãe. Nessa primeira fase do complexo de Édipo o pai se encontra de fora dessa tríade.

No segundo tempo do complexo de Édipo, o Pai intervém no desejo da mãe através da proibição do incesto, ele age como o agente da castração, numa presença privadora, como suporte da lei. É a palavra do Pai, que retira a criança do lugar de objeto, e a liga à vida e aos objetos do mundo.

No terceiro tempo, ocorre o declínio do Édipo, no qual a criança, através da continuidade da incidência do Pai na díade imaginária com a mãe, se posiciona diante do falo e encontra no Pai o suporte identificatório, na medida em que ele tem o falo que a mãe deseja. O menino sai, então, da posição de ser o falo da mãe para a posição de ter um falo (ibidem, p. 200).

Segundo Lacan o que está em jogo no declínio do Édipo é que a criança assuma o falo como significante, que saia da posição de engodo imaginário com a mãe. A saída de sua posição de objeto de desejo do outro materno só é possível com a entrada do Pai interditando a relação incestuosa. Desta forma, a criança vai perceber que existe algo mais-além da mãe, já que é o Pai quem tem aquilo que falta à mãe e que ela deseja: o falo (ibidem, p. 206). Como efeito da dissolução do complexo, a criança identifica-se ao Pai, ao mesmo tempo em que começa a se formar o supereu como instância reguladora das satisfações pulsionais.
Os conceitos apresentados e desenvolvidos acima colocam pontos importantes em relação ao manejo transferencial na clínica psicanalítica, tal como o cuidado para não obstruir a emergência do desejo do paciente face a satisfação de suas demandas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, J. (1955) “A Coisa freudiana”. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

_________. (1956-57) O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

_________. (1957-58) O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

_________. (1958) “A significação do falo”. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

GOZO SADIANO OU GOZO IMPOSSÍVEL: CONTRIBUIÇÕES PARA A ÉTICA DA PSICANÁLISE

Em Kant com Sade, Lacan (1962) retoma Sade para apontar que ele faz aparecer a verdade escondida em Kant: que o sujeito não é UM, e sim dividido. O grafo do fantasma sadiano demonstra uma “divisão contínua do sujeito que é ordenada pela experiência” (ibidem, p. 785) e não mais pela razão pura, assim como defendia Kant.

Sade apresenta essa divisão através da dialética entre a vítima e o carrasco. Ao defender que é a vítima que atribui o gozo ao Outro ele assinala que há algo mais além da lei e do desejo que determinam essa relação: o gozo. O gozo nesse momento do ensino de Lacan surge como gozo real, impossível, que só é alcançado através da transgressão, assim como o faz Sade. Segundo Sade as vontades do sujeito não correspondem a um bem universal, e o imperativo superegóico não é mais de proibição. A máxima sadiana promove o imperativo do gozo “Tenho o direito de gozar de teu corpo, pode dizer-me qualquer um, e exercerei esse direito, sem que nenhum limite me detenha no capricho das extorsões que me dê gosto de nele saciar” (ibidem, p. 780).

Com o objetivo de esclarecer a relação entre o desejo, a lei e o gozo, Lacan (1959-60: 237) em O seminário, Livro 7: A ética da psicanálise, retoma o mandamento “amarás ao próximo como a ti mesmo”. Esse mandamento nos remete aos fenômenos caracterizados como “estranhos”: uma distância íntima entre o sujeito e o Outro, que faz com que o Outro se apresente em duas faces – assim como nos elucida Julien (1996) –uma feita a nossa imagem e semelhança, e outra face que está além do semelhante, que compreende o real da Coisa, das Ding. Podemos incluir essa segunda face na dimensão do mais-além do princípio do prazer, de algo que não está subordinado à lei do bem, mas sim ao enigma do gozo do Outro. Cumprir esse mandamento é impossível, pois amar ao próximo é se aproximar do que nos é mais estranho, mas ao mesmo tempo mais próximo, ou seja, cumprir esse mandamento é se aproximar do gozo. Desse modo, o recuo diante do mandamento “amarás ao próximo como a ti mesmo”, é o mesmo diante do gozo. O sujeito recua, portanto, diante da imagem do outro que carrega um furo, do outro castrado que o remete a sua própria castração.

O termo freudiano das Ding – A Coisa – significa o objeto que está para sempre perdido e por isso mesmo marcado pela eterna busca de reencontrá-lo. Esse movimento, ligado à busca da coisa perdida que falta no lugar do Outro, é causa de sofrimento, que nunca erradica por completo a busca do gozo. Ao considerar das Ding como gozo real, fora do sistema, afirma, portanto, que só temos acesso a este através de um forçamento, por via da transgressão à Lei. O gozo de Sade seria a expressão dessa transgressão, na medida em que ele tenta permanentemente ultrapassar os limites do princípio de prazer, transgredir a lei, transgredir “todos os limites humanos” (ibidem, p. 245).

Miller (2000: 91) em Os seis paradigmas do gozo equivale o gozo real, impossível, ao gozo sadiano, trata-se de uma satisfação verdadeira, que não se encontra no registro simbólico ou no imaginário, posto que é da ordem do real. Segundo ele, se a Lei moral de Kant é um enunciado simbólico que comporta a anulação de todo o gozo em prol de um bem universal, Sade é aquele que fala de uma satisfação que está mais além do princípio do prazer e mais além do simbólico, fora de todo significante e do significado.

Essas pontuações oferecem contribuições importantes para pensarmos a Ética da Psicanálise, assim como Lacan pontua no capítulo “o gozo da transgressão” do seminário A ética da psicanálise. Podemos aqui tentar pensar com Lacan: como a clínica psicanalítica pode se servir da proposta de Sade?

Essa é uma discussão que merece ser levada a frente, pois não é raro vermos em nosso campo profissionais que desconsideram a dimensão do real e do gozo presentes na clínica. A psicanálise nos ensina que não podemos nos basear em universais do bem como guia de tratamento na experiência analítica; contrária a universalização a psicanálise propõe a singularidade, e considera que os objetos se tornam desejáveis de acordo como cada um se serve da fantasia.

Aqui uma citação de Lacan nos ajuda e nos instiga a continuar essa discussão:

O que o analista tem a dar, contrariamente ao parceiro do amor, é o que a mais linda noiva do mundo não pode ultrapassar, ou seja, o que ele tem. E o que ele tem nada mais é do que seu desejo, como o analisado, com a diferença de que é um desejo prevenido. O que pode ser, propriamente falando, o desejo do analista? Desde já, podemos no entanto dizer o que ele não pode ser. Ele não pode desejar o impossível (Lacan, 1959-60: 360)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

JULIEN, Philippe (1996). O estranho gozo do próximo: ética e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
LACAN, J. (1959-60). O seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
_________ (1962). “Kant com Sade”. in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
MILLER, J-A (2000). Os seis paradoxos do Gozo. In La cause freudiene nº43.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

PONTUAÇÕES SOBRE A COMPULSÃO À REPETIÇÃO NO CASO “O HOMEM DOS RATOS”

O caso do “Homem dos Ratos” publicado por Freud em 1909 nos oferece importantes contribuições para a definição psicanalítica da neurose obsessiva. No caso trabalhado pelo autor, fica evidente o quanto a dúvida e dívida do neurótico obsessivo têm uma relação direta com o pai.
Segundo Freud (1924), o pai edipiano permanece como um ideal e continua a exercer sua autoridade através do supereu. Porém na neurose obsessiva o sujeito se fixa de tal modo no pai ideal, que o supereu retorna de um modo feroz: exige a renúncia do gozo causando inibição, impulsos compulsivos, proibições e atos obsessivos.
No caso do “Homem dos Ratos” a figura paterna era tão forte que ele falava do pai como se ainda fosse vivo. A identificação com o pai como fracassado tornava suas dívidas impossíveis de serem pagas, como foi o caso do pince-nez (Freud, 1909: 149). Ao ser tão devedor como o pai o “Homem dos Ratos” evitava superá-lo.
A compulsão à repetição que passa a ser marcante na vida do “Homem dos Ratos” nos remete ao ponto que não pode ser enunciado e que retorna: o impedimento de superar o pai, pois se isso acontecesse o pai perderia seu valor de ideal.
Diante da dívida impossível de pagar, a história se reduplica e o “Homem dos Ratos” reatualiza a dívida do pai e faz de tudo para não conseguir pagá-la. Diferente da histérica, o recalque no obsessivo é mal-sucedido, por isso ele repete num ponto de real.
Lacan (1964) em O seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise define o conceito de compulsão à repetição como um encontro com o real. O real é aquilo que “retorna sempre ao mesmo lugar, a esse lugar onde o sujeito não o encontra” (ibidem, p. 52), ou seja, o real é isso que não cessa de não se inscrever, é esse ponto onde o inassimilável se produz.
A compulsão à repetição aponta um mais além do princípio do prazer. Freud (1900-1901) evidencia essa relação por meio da análise que faz de um sonho. Nesse sonho um pai, que deveria velar o filho morto, deixa um velho vigiando o corpo do menino e vai descansar num quarto ao lado. Em algum momento o pai adormece e sonha que o filho está de pé ao seu lado e lhe diz “Pai, não vês que estou queimando?”. Nesse momento o pai desperta e vê que realmente o corpo do filho estava queimando por conta de uma vela que caíra sobre ele enquanto o velho que o vigiava dormira. Esse sonho corrobora com a tese de que o sonho é uma realização de desejo – porque além do filho estar vivo no sonho o pai também realiza o desejo de continuar dormindo –, porém aponta um novo elemento, algo mais além do princípio do prazer.
Deste modo, o caráter de compulsão à repetição presente nesse sonho cria um entrave à oposição entre princípio do prazer/princípio de realidade. Tal impasse, retomado por Freud em textos posteriores, culminou na formulação de um novo dualismo pulsional entre a pulsão de vida à pulsão de morte. Na medida em que a pulsão de morte é incluída no aparelho psíquico a repetição deixa de ser uma “recordação” ou um retorno às experiências traumáticas para ser uma tentativa de vincular a energia que permaneceu não ligada.
Lacan (1964: 56) em O seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise retoma a questão da repetição para assinalar que ela pode se apresentar de dois modos: através do autômaton e da tiquê. O autômaton é o retorno, a insistência dos signos comandada pelo princípio do prazer. Há também na repetição a função da tiquê: encontro com faltoso, traumático, com o real, que comporta algo de inassimilável.
Ainda nesse Seminário Lacan (ibidem, p. 59) retoma o sonho de “Pai não vês que estou queimando?” para dizer que um ruído, talvez das velas queimando, chamou o pai ao real. Assinala a presença de uma realidade faltosa, que teria causado a morte da criança por febre, e para o remorso do pai por ter deixado o corpo do filho sendo velado por um velho que talvez não desse conta da tarefa. O “pecado do pai” foi não estar à altura de sua função de velar o filho morto:

O filho morto, pegando o pai pelo braço, visão atroz, designa um mais-além que se faz ouvir no sonho. O desejo aí se presentifica pela perda imajada ao ponto mais cruel, do objeto. É no sonho somente que se pode dar a esse encontro verdadeiramente único. Só um rito, um ato sempre repetido, pode comemorar esse encontro imemorável (Ibidem: 60).

O fenômeno da compulsão à repetição tão presente na análise de obsessivos nos aponta para algo a ser trabalhado aí, pois o ponto de real que insiste clama pela elaboração, na tentativa de dar sentido a algo que permanece enigmático. Se o obsessivo recobre seu desejo pela demanda – na medida em que faz de tudo para ser completo, e também para fazer do Outro completo – ao tentar preencher o furo que lhe é constituinte, a análise aponta para a falta, para a emergência do desejo e para a construção de um saber-fazer aí com esse ponto de real que persiste em retornar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund. (1900-1901). “A interpretação dos sonhos”. in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: ESB, vol. XIII . Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_______________. (1909). “Notas sobre um caso de neurose obsessiva”. in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: ESB, vol. X. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
_______________ (1924). “A dissolução do complexo de Édipo”. in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: ESB, vol. XIX, op. cit.
LACAN, J. (1964). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979.

A FUNÇÃO DO PAI NO CASO DO PEQUENO HANS

Para discorrermos sobre a função do pai no caso Hans partiremos do caso Hans (1909), associado à leitura dos “três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) e textos que assinalem a questão do complexo de Édipo.
Inicialmente Hans se encontra no que Lacan define como “paraíso” com a mãe, relação dual, imaginária, a ilusão de complementaridade com o corpo da mãe. Nessa relação a criança é objeto de desejo da mãe, é o falo que falta a ela.
Porém há um momento em que se rompe essa relação dual: o encontro com o traumático, o real que faz furo no imaginário. As experiências traumáticas são o nascimento da irmã e as experiências masturbatórias. Elas furam a relação de engodo imaginário, pois defrontam Hans com algo externo ao paraíso, o que acontece quando seu próprio pênis começa a se tornar real, falo como um órgão fora do corpo, e o nascimento da irmã que rompe sua relação de unicidade com a mãe.
A partir desse momento Hans elege um objeto à condição de significante para dar conta da falta simbólica. O objeto fóbico (Cavalo) é uma proteção contra angústia que advém de sua relação com a mãe.
No capítulo IV de “Inibição, sintoma e angústia” (1926), Freud define a fobia como um sintoma substituto para algo que foi recalcado (impulso hostil contra o pai). A fobia de Hans “eliminou os dois principais impulsos do complexo edipiano – sua agressividade para com o pai e seu excesso de afeição pela mãe” (Freud, 1926: 109).
Vale destacar que se para Freud o objeto fóbico “cavalo” aparece como substituto do pai, Lacan dá ao cavalo e aos outros elementos da fantasia não uma função metafórica e sim metonímica, de deslizamento, por exemplo, o cavalo que representa num primeiro momento a mãe, por último o pai e ainda o pequeno Hans.
Segundo Freud (1909: 47), a angústia de Hans possui dois componentes: o medo de seu pai e medo por seu pai: “O primeiro derivava de sua hostilidade para com seu pai, e o outro derivava do conflito entre sua afeição, exagerada a esse ponto por um mecanismo de compensação, e sua hostilidade”. Assim, ele tinha tanto medo que o cavalo o mordesse (que o pai o castrasse), como que o cavalo caísse (morte do pai).
Podemos aqui pensar que a construção fóbica de Hans está estritamente relacionada com a função paterna e que, portanto, é essa função exercida pelo pai que encaminha a solução da fobia. A fobia é uma solução à deficiência paterna através da eleição de um objeto que alça o valor de significante e assim funciona como suplência que sustenta a função do pai real.
A fobia surge, como nos ensina Lacan, por causa da carência do pai real, é porque o pai não funciona como agente da castração que Hans não pode sair da posição Edípica (amor pela mãe e ódio pelo pai). Uma fantasia que ilustra o Édipo de Hans é aquela em que há duas girafas, uma girafa grande e outra amassada, representando o órgão genital da mãe. Na fantasia ele se senta na girafa grande, que representaria seu pai, e com isso ele tomaria posse da mãe.
Lacan analisa que mesmo Hans tendo tomado posse da mãe na fantasia, o pai não reage com raiva. Hans chega a dizer “você deve estar com raiva, você deve estar com ciúmes” (Lacan, 1956-57: 269), mas o pai não reage diante do Édipo apresentado pelo filho.
A fobia se deve, então, a carência do pai real. Segundo Lacan, Hans, filho único, nadava em felicidade. A mãe o cercava de carinhos, tudo lhe era permitido (inclusive ficar no leito dos pais) e o pai não tinha o controle da situação, não apresentava nenhuma ameaça de castração ao pequeno Hans (Lacan, 1956-57: 227). Hans não é frustrado em nada, não é privado pelo pai de seus prazeres: “vemos ao longo de toda a observação o pequeno Hans reagir à intervenção do pai real. Sua colocação na estufa, sob o fogo cruzado da interrogação paterna, mostra ter sido favorável nele a uma verdadeira cultura da fobia” (ibidem, p. 263). Lacan assinala que a fobia de Hans foi intensificada pela ação do pai.
A posição do pai simbólico, como nos diz Lacan, permanece velada, na medida em que ocupa a posição de pai imaginário ao tentar diminuir a culpa de Hans, explicando que sua fobia é uma bobagem, que ele pode olhar os cavalos, que o falo desejado (na mãe) não existe etc.
Lacan assinala que na verdade quem exerce o papel de Pai para Hans é Freud, o “pai superior”, aquele “a quem a palavra se revela como testemunho da verdade”. O pai de Hans diante de seu não-saber o que é ser um pai o demanda a Freud e a partir daí é o professor quem traça o encaminhamento da solução da fobia do menino através das orientações dada ao pai.
Podemos dizer que através da construção de fantasias é que Hans consegue dar conta da castração. Com a fantasia de que um bombeiro “lhe dava um pipi maior” ele supera o medo da castração e soluciona a fobia. O bombeiro que lhe desparafusa, coloca a dimensão do objeto como removível, objeto de troca situado fora do corpo. Com isso o falo se torna significante, aparelhado de uma mobilidade simbólica.