quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Divulgando o NIPIAC - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e Adolescência Contemporâneas

O Programa de Pós-graduação em Psicologia, por meio de seu Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e Adolescência Contemporâneas – NIPIAC, realizará nos dias 20 a 22 de outubro de 2010, no Campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Seminário Latinoamericano de Juventude e Política, e o IV Internúcleos sobre Juventude e Política.
O evento visa reunir pesquisadores latinoamericanos para a troca e o aprofundamento de questões acerca da participação política e social dos jovens no mundo contemporâneo.

Maiores informações no site: http://www.psicologia.ufrj.br/nipiac/

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

___FREUD, S. (1923). “O ego e o id”. Em: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud

Nesse texto, Freud retoma a distinção entre consciente e inconsciente, mas para caracterizar este último como “latente e capaz de tornar-se consciente” (p.28). Essa nova formação da mente se organiza em três sistemas: o id, o eu e o supereu.
Freud apresenta um “esquema mental” no qual formula a existência de um isso primitivo, que sob influência do mundo se diferencia e dá origem ao eu. Com isso o eu está fundido, em sua parte inferior, com o isso e apresenta em sua superfície o pré-consciente. O reprimido não pertence exclusivamente ao isso, já que pode se comunicar com o eu através do isso. O eu utiliza um “receptor acústico” para se comunicar com o mundo através da percepção e da consciência. Há um conflito constante no aparelho psíquico entre o princípio do prazer e o da realidade, que tenta manter constante o nível de excitação.
Por fim ele apresenta o fenômeno que também são conscientes e inconscientes e atuam como instâncias críticas, julgadoras, que submetem nossas ações às restrições morais e ao sentimento de culpa. Essa terceira instância, definida como supereu, demonstra que o eu não pode ser definido simplesmente como uma parte do isso modificada pelo mundo. Trata-se de uma gradação no eu, uma diferenciação, que foi inicialmente descrita como ideal do eu. Como efeito do complexo de castração o indivíduo elege novas identificações para substituir algo que perdeu (primeiras satisfações alcançadas com a nutrição, através do seio materno). Essa substituição tem função na construção do caráter do indivíduo e conformidade com as regras morais da sociedade “o caráter do ego é um precipitado de catexias objetais abandonadas e que ele contém a história dessas escolhas de objeto” (p.42). Sua primeira identificação é com o pai, como modelo do que o indivíduo quer ser.
Para explicamos esse ponto precisamos fazer uma alusão ao complexo de Édipo. No início o menino se encontra numa relação dual com a mãe, ela satisfaz suas necessidades através do seio. Porém o crescente amor pela mãe encontra o pai como obstáculo a essa união. O menino então dirige seu ódio ao pai a fim de se livrar dele, para poder ficar com a mãe. Porém essa relação não é restrita ao ódio, há uma ambivalência de afeto, sua identificação oscila entre a hostilidade e o amor.
Somente com a dissolução do Édipo a mãe é abandonado como objeto de amor e o menino se identifica com o pai como modelo. Com a saída do Édipo forma-se o supereu como herdeiro das proibições paternas, é um representante do pai.
O ideal do eu carrega as injunções e proibições e as exerce por meio da censura moral.
Sendo assim, a primeira identificação do indivíduo à algo externo a ele se relaciona ao supereu “O superego deve sua posição especial no ego, ou em relação ao ego, a um fator que deve ser considerado sob dois aspectos: por um lado, ele foi a primeira identificação, uma identificação que se efetuou enquanto o ego ainda era fraco; por outro, é o herdeiro do complexo de Édipo, e, assim, introduziu os objetos mais significativos no ego” (p.61).

sábado, 28 de agosto de 2010

“A moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna”. Em: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud

Nesse texto Freud expõe a luta entre a civilização e a satisfação pulsional.
Na nota do Editor assinala que esse assunto já foi aludido por Freud na carta à Fliess de 31 de maio de 1897, na qual ele escreve que “o incesto é anti-social e a civilização consiste na renúncia progressiva ao mesmo” e nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, em que Freud diz que: “a realização inversa que existe entre a civilização e o livre desenvolvimento da sexualidade”.
Retoma os aspectos sociológicos que foram discutidos nesse texto de 1908 em artigos posteriores como “O futuro de uma ilusão” (1927), “Por que a guerra?” (1933) e em “O mal-estar na civilização” (1930).
No início do artigo Freud distingue moral sexual normal de moral sexual civilizada para dizer que a civilização, ou a cultura, estabelecer restrições para que seja possível a vida em sociedade, o que acarreta diversos prejuízos aos indivíduos. A principal delas é o aumento da doença nervosa moderna.
Freud destaca que a origem das neuroses, expressão da doença nervosa moderna, é a repressão sexual, logo, os sintomas neuróticos são uma satisfação substitutiva da pulsão sexual recalcada.
Freud (1908, p.175) diz que a internalização da moral civilizada se dá ao longo do desenvolvimento do indivíduo com o progressivo recalque da pulsão sexual. A satisfação sexual através do auto-erotismo na infância, obtenção de prazer através do próprio corpo, é recalcada para dar lugar a satisfação genital e ao amor objetal. A moral sexual ‘civilizada’ é alcançada quando a satisfação sexual com fins reprodutiva é eleita como objetivo sexual.
Segundo Freud os neuróticos possuem uma organização "recalcitrante", pois a supressão das pulsões é apenas aparente, ou seja, o que é recalcado retorna na forma de sintomas.Os sintomas são satisfações substitutivas da pulsão recalcada.
Freud analisa que a contínua repressão sexual pelas exigências da civilização aumentará os casos de neurose, como resistência, fuga das pressões.
Ele destaca os prejuízos ou mesmo as neuroses causadas pelas restrições sexuais impostas antes do casamento, em que os jovens que são submetidos a abstinência sexual, e mesmo após este, posto que a relação sexual é concedida aos casais com fins reprodutivos. Destaca principalmente as mulheres que incitadas a preservarem sua castidade e moral, não conseguem se envolver afetivamente e eroticamente nos relacionamentos amorosos.
A neurose é definida como o retorno dos desejos ou da pulsão sexual recalcada que são hostis a civilização. Freud dá o exemplo de uma mulher se casou sem amar o marido. No esforço de amá-lo, de acordo com o ideal civilizatório, ela recalca todas suas idéias e sentimentos que vão contra ele. Mas como efeito disso surge uma doença nervosa, neurótica que lhe causa enormes prejuízos.
E, por fim, destaca que a restrição da atividade sexual causa um aumento do medo da morte e da angústia em existir. E pergunta se todo sacrifício de abrir mão da felicidade individual em prol da moral civilizada de uma comunidade vale a pena diante de tantos prejuízos causados?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Crack: Apocalipse químico

Retirado do site da ABEAD
Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas

O Crack têm se disseminado rapidamente. Essa droga é sete vezes mais potente que a
cocaína e também mais cruel e mortífera. O usuário chega a viciar no primeiro uso.

Desafeiçoado. Escondido pelo escuro da noite e feliz pela ilusão da droga. É tarde, e cada esquina vira boca de fumo. O crack tomou conta. Não se tem acepção de idades. São milhares de crianças, jovens e adultos encolhidos em qualquer canto, iluminados apenas por um palito de fósforo aceso. “A gente pensa que aqui quase não tem viciados em crack. Aí é que a gente se engana. Tem crianças usando crack até na escola.” Relata Jordão Vittor, 26, morador do bairro Santa Lúzia.
O crack é a mistura de cocaína refinada com bicarbonato de sódio que resulta em grãos que são fumados em cachimbos ou latas. Seu efeito pode ser de cinco a sete vezes mais potentes que a cocaína, entretanto, também é mais cruel e mortífero. Durante 10 minutos, no máximo, o usuário sente uma sensação eufórica e excitante, seguido de depressão, delírio e a necessidade de repetição da dose, quase instantaneamente.
P. tem somente 17 anos e já é viciado há dois, atualmente, usa cerca de 60 pedras de crack por dia. Todo sujo, usa dialetos, fala alto e olha de lado, mas não é agressivo, apesar de estar sob efeito da droga.
Ele é tão novo e já sem esperanças, sem expectativa de vida, sem rumo. “Eu fico bem quando uso. Depois percebo que não tenho vida, aí fumo de novo. Se eu morrer agora, vou morrer feliz”.
Em um passado bem recente, somente pessoas desprovidas de dinheiro é que eram dependentes do crack, já que é uma droga barata, custando de 5 a 10 reais a pedra. Hoje, esse perfil mudou. Agora as classes média e alta também são escravos do crack. “Antes era só na favela, hoje você vê os ‘playboys’ comprando a pedra”, alerta P.
Segundo o psiquiatra especialista em dependência e saúde mental Paulo Soares Gontijo o crescimento exagerado do consumo se deve ao fato do custo ser baixo e da mobilidade do tráfico. “Quanto mais barato, maior o consumo. Quanto mais consumo, maior a procura por tratamento”, explica.
Apesar de ser um valor relativamente baixo, o viciado começa a vender seus pertences, fazer trocas e até furtos já que existe um interesse compulsivo em usar outras pedras. “Tem pessoas que vende até o telhado da casa para comprar droga”, diz P.
Quando não há mais esperanças de uma vida melhor, os jovens buscam no efeito momentâneo do crack, um motivo para sorrir. “A meu ver isso acontece devido à falta de oportunidade, a falta de possibilidade de que um dia a vida possa melhorar, e se essa pessoa não tiver uma vida com estrutura familiar e social bastante firme, o que acontecerá é que ela logo cairá nessa armadilha chamada crack”, disse o Delegado Regional de Barreiras Dr. Jorge Aragão ao jornal Novo Oeste.
Em Barreiras, no Oeste da Bahia, o uso do crack não está tão disseminado quanto na capital baiana, Salvador, onde o consumo aumentou 140%. Em Brasília (DF) com aumento de apreensão de pedras de crack em 175% em apenas um ano; e Goiânia (GO), onde existem 50 mil usuários, cerca de 4% da população.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Relatório Mundial sobre Drogas 2010 revela tendências de novas drogas e de novos mercados

O Relatório Mundial sobre Drogas 2010, divulgado nesta quarta-feira pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mostra que o consumo de drogas está se deslocando em direção a tendências de novas drogas e de novos mercados. O cultivo de drogas está diminuindo no Afeganistão (ópio) e nos países andinos (coca), e o consumo de drogas tem se estabilizado nos países desenvolvidos. Entretanto, há sinais de aumento no consumo de drogas nos países em desenvolvimento, além de um aumento no consumo de substâncias do tipo anfetamina (ATS, na sigla em inglês) e no abuso de medicamentos sob prescrição em todo o mundo.

Redução do cultivo de ópio e de coca
O Relatório mostra que a oferta mundial dos dois tipos de drogas mais problemáticos - opiáceos e cocaína - continua em declínio. A área global de cultivo de ópio caiu quase um quarto (23%) nos últimos dois anos, e a produção de ópio deve cair drasticamente em 2010, devido a uma praga que pode destruir até um quarto da papoula do Afeganistão. O cultivo de coca, que diminuiu 28% na última década, manteve a tendência de queda em 2009. A produção mundial de cocaína diminuiu de entre 12% e 18% no período de 2007 a 2009.

O mercado de cocaína está mudando
O Relatório Mundial sobre Drogas 2010 revela que o consumo de cocaína tem diminuído significativamente nos Estados Unidos, nos últimos anos. O valor de varejo no mercado de cocaína nos Estados Unidos diminuiu cerca de dois terços na década de 1990, e cerca de um quarto na década passada. "Um dos motivos para a violência associada às drogas no México é que os carteis estão lutando por um mercado que está diminuindo", disse o Diretor Executivo do UNODC, Antonio Maria Costa. "Essa disputa interna é benéfica para a América, pois a escassez de cocaína está resultando em menores índices de dependência, preços mais elevados e menor pureza nas doses".
De certa forma, o problema atravessou o Atlântico: na última década, o número de usuários de cocaína na Europa duplicou, passando de 2 milhões, em 1998, para 4,1 milhões em 2008. Em 2008, o mercado europeu (estimado em US$ 34 bilhões) chegou a ser quase tão valioso quanto o mercado norte-americano (US$ 37 bilhões). A mudança na demanda acarretou uma mudança nas rotas de tráfico, com uma quantidade crescente de cocaína sendo traficada dos países andinos para a Europa, via África Ocidental. Isso está causando instabilidade na região. "Pessoas que consomem cocaína na Europa estão destruindo florestas nativas dos países andinos e corrompendo governos na África Ocidental", disse Costa.

Tratamento para dependentes é insuficiente
O Relatório Mundial sobre Drogas 2010 expõe uma grave falta de serviços de tratamento para usuários de drogas em todo o mundo. "Enquanto pessoas de países ricos podem pagar pelo tratamento, pessoas pobres e/ou países pobres estão enfrentando as piores consequências à saúde", alertou o chefe do UNODC. O relatório estima que, em 2008, apenas cerca de um quinto dos usuários de drogas dependentes receberam tratamento no ano passado - o que significa cerca de 20 milhões de pessoas dependentes de drogas sem receber tratamento adequado. "Já está na hora de haver acesso universal ao tratamento para as drogas", disse Costa.
Ele considera que a saúde é a peça-chave no controle de drogas. "A dependência é um problema de saúde tratável, não uma sentença morte. Os dependentes de drogas devem ser encaminhados para tratamento, não para a prisão. E o tratamento da dependência de drogas deve fazer parte dos serviços de saúde em geral".
Ele também fez um apelo por um maior respeito pelos direitos humanos. "Só porque as pessoas usam drogas ou estão atrás das grades, isso não elimina seus direitos. Faço um apelo aos países onde as pessoas são executadas por crimes relacionados com drogas, ou pior, são mortos a tiros por grupos de extermínio, para acabar com essas práticas".

Sinais de alerta nos países em desenvolvimento
Costa destacou os perigos do uso de drogas nos países em desenvolvimento. "As forças do mercado já moldaram as dimensões assimétricas da economia da droga: os maiores consumidores de drogas (os países ricos) impuseram aos países pobres (os principais locais de abastecimento e de tráfico) os maiores danos", disse Costa. "Os países pobres não estão em condições de absorver as consequências do aumento do consumo de drogas. Os países em desenvolvimento enfrentam uma crise iminente que poderá levar milhões de pessoas para o problema da dependência de drogas".
Ele citou como exemplos o crescimento do consumo de heroína na África Oriental, o aumento do uso de cocaína na África Ocidental e na América do Sul e o aumento na produção e no abuso de drogas sintéticas no Oriente Médio e no Sudeste Asiático. "Nós não vamos resolver o problema mundial da droga deslocando o consumo dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento", disse Costa.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Resenha do texto “A significação do falo” de Lacan (1958/1998)

O texto “A significação do falo” se situa no primeiro ensino de Lacan, em que predomina a lógica do significante e a relação da estrutura de linguagem à lógica do inconsciente.


Lacan se lança, principalmente na década de 50, em um retorno ao sentido de Freud, com o objetivo de desenvolver a afirmação de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ou seja, que a fala e a linguagem ocupam lugar central na experiência psicanalítica: “o sentido de um retorno a Freud é um retorno ao sentido de Freud” (1955/1998: 406).

Para tal, ele procura estabelecer a relação entre o Édipo e o simbólico, tal como ele nos apresenta no texto “A significação do falo”. Ali ele destaca que “o complexo de castração inconsciente tem uma função de nó“ (1958/1998: 692), ou seja, que é a partir do complexo de castração, ao operar uma função de lei, que o sujeito é inscrito na ordem simbólica, enquanto dividido, desejante. Da mesma forma, sob a barra da castração e do recalque, o sujeito se inscreve na ordem fálica, que exerce a função de regulação do gozo sexual.

Contudo, a apreensão do falo enquanto significante requer um passagem do sujeito do campo da demanda para o campo do desejo. E como isso acontece?

Lacan (1958/1998: 697-698) nos explica que: a) a demanda é algo distinto da satisfação por que clama, b) ela é demanda de uma presença e ausência, c) suas características são elididas na noção de frustração.

Assim, recorrendo ao O seminário, livro 4: as relações de objeto, destacamos a definição do conceito de frustração: “é considerada como um conjunto de impressões reais, vividas pelo sujeito num período de desenvolvimento em que sua relação com o objeto real está centrada habitualmente na imago dita primordial do seio materno” (Lacan, 1956-57/1998: 62). Ou seja, a frustração ocorre quando o objeto real – o seio – ou a mãe se ausentam. Quando a mãe não responde mais ao apelo da criança ela sai da estruturação e se torna real, se torna uma potência. Dessa forma, ocorre uma inversão da posição de objeto: o que até então eram objetos de satisfação tornam-se, por parte da potência materna, objeto de dom.

A transformação do objeto em simbólico, ou seja, a assunção do falo enquanto significante, requer que o sujeito se depare, para além da frustração com a mãe, com “um outro desejo”, que é o desejo do Pai: “é através do Édipo que o desejo genital é assumido e vem tomar lugar na economia subjetiva” (Lacan, 1957-58/1998: 371). É, portanto, por intermédio do desejo do Pai, e do significante falo, que se introduz o para-além da relação com a fala do Outro materno, ou seja, para além da demanda.

Assim, em relação à frustração, o pai proíbe a mãe – objeto real – ao filho, na medida em que intervém sobre essa relação incestuosa. No nível da privação, o pai é o objeto preferido em relação à mãe, desta forma o menino o elege como modelo, como ideal do eu, como aquele com quem passa a se identificar. E no que diz respeito à castração, trata-se de uma intervenção do pai real como uma ameaça imaginária sobre um falo imaginário, que ainda não alçou o valor simbólico, significante.

A passagem do campo da demanda para o campo do desejo é explicada de modo detalhado por Lacan (1957-58/1998: 197-203) quando ele apresenta os três tempos do complexo de Édipo. O primeiro tempo, da demanda, é caracterizado pela relação dual, imaginária, entre a criança e a mãe, em que a criança tem a ilusão de complementaridade com o corpo da mãe. Do mesmo modo, a criança se identifica de forma especular com o falo imaginário – objeto de desejo materno –, ela é o falo que falta à mãe. Nessa primeira fase do complexo de Édipo o pai se encontra de fora dessa tríade.

No segundo tempo do complexo de Édipo, o Pai intervém no desejo da mãe através da proibição do incesto, ele age como o agente da castração, numa presença privadora, como suporte da lei. É a palavra do Pai, que retira a criança do lugar de objeto, e a liga à vida e aos objetos do mundo.

No terceiro tempo, ocorre o declínio do Édipo, no qual a criança, através da continuidade da incidência do Pai na díade imaginária com a mãe, se posiciona diante do falo e encontra no Pai o suporte identificatório, na medida em que ele tem o falo que a mãe deseja. O menino sai, então, da posição de ser o falo da mãe para a posição de ter um falo (ibidem, p. 200).

Segundo Lacan o que está em jogo no declínio do Édipo é que a criança assuma o falo como significante, que saia da posição de engodo imaginário com a mãe. A saída de sua posição de objeto de desejo do outro materno só é possível com a entrada do Pai interditando a relação incestuosa. Desta forma, a criança vai perceber que existe algo mais-além da mãe, já que é o Pai quem tem aquilo que falta à mãe e que ela deseja: o falo (ibidem, p. 206). Como efeito da dissolução do complexo, a criança identifica-se ao Pai, ao mesmo tempo em que começa a se formar o supereu como instância reguladora das satisfações pulsionais.
Os conceitos apresentados e desenvolvidos acima colocam pontos importantes em relação ao manejo transferencial na clínica psicanalítica, tal como o cuidado para não obstruir a emergência do desejo do paciente face a satisfação de suas demandas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, J. (1955) “A Coisa freudiana”. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

_________. (1956-57) O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

_________. (1957-58) O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

_________. (1958) “A significação do falo”. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

GOZO SADIANO OU GOZO IMPOSSÍVEL: CONTRIBUIÇÕES PARA A ÉTICA DA PSICANÁLISE

Em Kant com Sade, Lacan (1962) retoma Sade para apontar que ele faz aparecer a verdade escondida em Kant: que o sujeito não é UM, e sim dividido. O grafo do fantasma sadiano demonstra uma “divisão contínua do sujeito que é ordenada pela experiência” (ibidem, p. 785) e não mais pela razão pura, assim como defendia Kant.

Sade apresenta essa divisão através da dialética entre a vítima e o carrasco. Ao defender que é a vítima que atribui o gozo ao Outro ele assinala que há algo mais além da lei e do desejo que determinam essa relação: o gozo. O gozo nesse momento do ensino de Lacan surge como gozo real, impossível, que só é alcançado através da transgressão, assim como o faz Sade. Segundo Sade as vontades do sujeito não correspondem a um bem universal, e o imperativo superegóico não é mais de proibição. A máxima sadiana promove o imperativo do gozo “Tenho o direito de gozar de teu corpo, pode dizer-me qualquer um, e exercerei esse direito, sem que nenhum limite me detenha no capricho das extorsões que me dê gosto de nele saciar” (ibidem, p. 780).

Com o objetivo de esclarecer a relação entre o desejo, a lei e o gozo, Lacan (1959-60: 237) em O seminário, Livro 7: A ética da psicanálise, retoma o mandamento “amarás ao próximo como a ti mesmo”. Esse mandamento nos remete aos fenômenos caracterizados como “estranhos”: uma distância íntima entre o sujeito e o Outro, que faz com que o Outro se apresente em duas faces – assim como nos elucida Julien (1996) –uma feita a nossa imagem e semelhança, e outra face que está além do semelhante, que compreende o real da Coisa, das Ding. Podemos incluir essa segunda face na dimensão do mais-além do princípio do prazer, de algo que não está subordinado à lei do bem, mas sim ao enigma do gozo do Outro. Cumprir esse mandamento é impossível, pois amar ao próximo é se aproximar do que nos é mais estranho, mas ao mesmo tempo mais próximo, ou seja, cumprir esse mandamento é se aproximar do gozo. Desse modo, o recuo diante do mandamento “amarás ao próximo como a ti mesmo”, é o mesmo diante do gozo. O sujeito recua, portanto, diante da imagem do outro que carrega um furo, do outro castrado que o remete a sua própria castração.

O termo freudiano das Ding – A Coisa – significa o objeto que está para sempre perdido e por isso mesmo marcado pela eterna busca de reencontrá-lo. Esse movimento, ligado à busca da coisa perdida que falta no lugar do Outro, é causa de sofrimento, que nunca erradica por completo a busca do gozo. Ao considerar das Ding como gozo real, fora do sistema, afirma, portanto, que só temos acesso a este através de um forçamento, por via da transgressão à Lei. O gozo de Sade seria a expressão dessa transgressão, na medida em que ele tenta permanentemente ultrapassar os limites do princípio de prazer, transgredir a lei, transgredir “todos os limites humanos” (ibidem, p. 245).

Miller (2000: 91) em Os seis paradigmas do gozo equivale o gozo real, impossível, ao gozo sadiano, trata-se de uma satisfação verdadeira, que não se encontra no registro simbólico ou no imaginário, posto que é da ordem do real. Segundo ele, se a Lei moral de Kant é um enunciado simbólico que comporta a anulação de todo o gozo em prol de um bem universal, Sade é aquele que fala de uma satisfação que está mais além do princípio do prazer e mais além do simbólico, fora de todo significante e do significado.

Essas pontuações oferecem contribuições importantes para pensarmos a Ética da Psicanálise, assim como Lacan pontua no capítulo “o gozo da transgressão” do seminário A ética da psicanálise. Podemos aqui tentar pensar com Lacan: como a clínica psicanalítica pode se servir da proposta de Sade?

Essa é uma discussão que merece ser levada a frente, pois não é raro vermos em nosso campo profissionais que desconsideram a dimensão do real e do gozo presentes na clínica. A psicanálise nos ensina que não podemos nos basear em universais do bem como guia de tratamento na experiência analítica; contrária a universalização a psicanálise propõe a singularidade, e considera que os objetos se tornam desejáveis de acordo como cada um se serve da fantasia.

Aqui uma citação de Lacan nos ajuda e nos instiga a continuar essa discussão:

O que o analista tem a dar, contrariamente ao parceiro do amor, é o que a mais linda noiva do mundo não pode ultrapassar, ou seja, o que ele tem. E o que ele tem nada mais é do que seu desejo, como o analisado, com a diferença de que é um desejo prevenido. O que pode ser, propriamente falando, o desejo do analista? Desde já, podemos no entanto dizer o que ele não pode ser. Ele não pode desejar o impossível (Lacan, 1959-60: 360)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

JULIEN, Philippe (1996). O estranho gozo do próximo: ética e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
LACAN, J. (1959-60). O seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
_________ (1962). “Kant com Sade”. in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
MILLER, J-A (2000). Os seis paradoxos do Gozo. In La cause freudiene nº43.