domingo, 8 de abril de 2012

Opção Lacaniana Online nº 7


Editorial e sumário

A Associação Mundial de Psicanálise – AMP está prestes a realizar, em Buenos Aires, seu VIII Congresso Internacional sobre “A ordem simbólica no século XXI”. Um subtítulo desafia: “Não é mais o que era. Que consequências para o tratamento?”
Recorro a um aspecto que esse tema suscita, para apresentar este número de Opção Lacaniana online nova série. Há na ordem simbólica atual um excesso de significantes e de variedades subjetivas para usá-los que, paradoxalmente, faz bem e mal. Voamos no virtual, pescamos em rede e sufocamos reféns da web. Alguns significantes são senhas de entrada em comunidades de sentido imperativamente compartilhado, outros se lançam aos muros na tentativa de fazer parte, só em parte. Entre esses dois polos, variedades ao infinito de enlaces nãotodos se oferecem à navegação. É com esse espírito de quase, mas não todo, que reunimos os textos que compõem esse número. O significante ‘opção’ não deixa de ter nisso um papel.
A tradição é publicar um texto de Jacques-Alain Miller. Dessa vez, reproduzimos um da revista impressa que, de tão memorável, de tamanho poder de transmissão, precisa voar mais pelo espaço digital. Trata-se de “Os seis paradigmas do gozo”, cuja leitura ajuda a lidar com as filigranas clínicas e teóricas do campo tão difícil do gozo.
O gozo serve também de senha para enlaçar os demais textos aqui publicados: o gozo do olhar e o corpo tatuado; o gozo na clínica e no laço; nas inibições e nos limites da elaboração clínica; na dimensão aditiva dos sintomas; na aposta no Outro para garantir que ele existe, discutida por Pascal; nos crimes das parcerias violentas; no alcance do que a psicanálise pode diante do seu pior; no que move a maquinaria inconsciente; no excesso feminino da erotomania e da devastação.
Cada um dos textos mencionados traz, na forma própria a cada autor, uma discussão e uma lição psicanalítica sobre o gozo.
Ao leitor, o prazer de suas escolhas.
Heloisa Caldas
Sumário
Os seis paradigmas do gozo
Jacques-Alain Miller
Tatuagem e laço social
Antônio Beneti
A clínica e o laço
Alicia Arenas
A elaboração e os limites da elaboração na clínica de hoje
Lilany Pacheco
A dimensão aditiva do sintoma
Glória Maron
Lacan e a aposta de Pascal
Maria Bernadette Pitteri
Crime ou parceria amorosa violenta: interlocuções entre psicanálise aplicada e direito
Elaine de Souza Cordeiro e Ruth Cohen
O que pode a psicanálise diante do destino para o pior? Considerações sobre a direção de tratamento das toxicomanias no avesso do mestre contemporâneo
Adriana Lipiani, Cláudia Henschel de Lima,José Alberto Ferreira,Julia Reis da Silva Mendonça, Vera Aragon.

Notas sobre a maquinaria inconsciente e a ordem simbólica
Luis Francisco E. Camargo
Estrutura, devastação e erotomania: um estudo preliminar
Jussara Jovita Souza da Rosa

terça-feira, 20 de março de 2012

"Pai, não vês que estou queimando?"

Através dessa frase, "Pai, não vês que estou queimando?", Freud apresenta a pergunta de um filho a um pai, pergunta que surge no sonho e denuncia a existência de algo mais além da mera realização de desejo. Esse é um sonho de um pai que velava o filho morto, apresentado por Freud em "A interpretação dos sonhos". O homem se encontrava num quarto ao lado do filho morto e deixara um velho vigiando o corpo do menino. Em algum momento o pai adormece e sonha que o filho está de pé ao seu lado e lhe diz “Pai, não vês que estou queimando?”. Nesse momento o homem desperta e vê que realmente o corpo do filho estava queimando por conta de uma vela que caíra sobre ele enquanto o velho que o vigiava dormira.

Esse sonho corrobora a tese de que o sonho é uma realização de desejo – na medida em que no sonho o filho se encontrava vivo –, porém aponta um novo elemento: o sentimento de culpa (Freud, 1900-1901, p. 587). Por isso podemos localizar na análise desse sonho os antecedentes do conceito do supereu, tal como Freud assinala em uma nota de rodapé acrescentada ao texto em 1930: “este seria o local apropriado para uma referência ao ‘superego’, uma das descobertas posteriores da psicanálise – Uma classe de sonhos que constitui uma exceção à ‘teoria do desejo’”.

Lacan (1964, p. 60) destaca que, apesar do sonho analisado por Freud confirmar a teoria do desejo –, pois o filho está vivo e o pai pode continuar dormindo –, este também aponta para a existência de algo além da fantasia e para o “pecado do pai”, destacado por Freud como "sentimento de culpa", que é não estar à altura de sua função de velar o filho morto:

O filho morto, pegando o pai pelo braço, visão atroz, designa um mais-além que se faz ouvir no sonho. O desejo aí se presentifica pela perda imajada ao ponto mais cruel, do objeto. É no sonho somente que se pode dar a esse encontro verdadeiramente único. Só um rito, um ato sempre repetido, pode comemorar esse encontro imemorável.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A posição feminina e a posição histérica

Quando ouvimos falar em posição feminina e posição histérica podemos nos confundir em relação a esses termos, e muitas vezes acharmos que eles são similares.

Contudo Carolina Rovere, em "Caras del goce femenino", marca essa diferença. Para tal cita Lacan no Seminário 3. Apesar de ser um livro dedicado a psicose, Lacan apresenta dois capítulos em que fala sobre a pergunta histérica. O que interessa na pergunta colocada na histeria é precisamente o que a diferencia do mecanismo da psicose. A neurose como estrutura se organiza ao redor de uma pergunta, enquanto que a psicose é a clínica da reposta, como observamos no famoso caso de paranóia trabalhado por Freud, o caso Schreber, em que tal paciente sabia o que era ser uma mulher, não havia dúvidas em relação a isso.

A pergunta da histérica é "o que é ser uma mulher?". Tal pergunta se coloca porque o sexo feminino é enigmático, nunca se sabe se uma mulher está realmente gozando ou não. Enquanto o gozo do homem, gozo fálico, não tem nada de enigmático, ele não pode fingir, não pode enganar.

Retornando à diferença entre a posição feminina e a posição histérica, Carolina Rovere assinala que a posição feminina é a identificação ao objeto paterno, ao objeto de desejo do pai. Por outro lado a posição histérica se trata de uma identificação imaginária ao pai, como é o caso descrito por Freud de Elisabeth Von R. que após a morte do pai se identificou ao lugar que o mesmo ocupava, no lugar do filho homem que o pai sempre desejou ter. Também através do caso Dora observamos a identificação imaginária ao pai realizada pela histérica, em que o sintoma da paciente (afonia) trazia o signo da impotência paterna.

Sugiro a leitura desse livro de Carolina Rovere, da Editora Letra Viva, de Buenos Aires, em que a psicanalista se aprofunda na investigação do gozo feminino.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Moisés e o Monoteísmo

Em “Moisés e o monoteísmo”, Freud (1939) desenvolve a questão da função do pai em psicanálise ao retomar a situação mítica da horda primeva e verificar que após a organização de uma comunidade de irmãos, que possibilitou a exogamia e o totemismo, tem início o retorno do recalcado. Se inicialmente havia a adoração de vários deuses, ao longo do tempo o politeísmo cedeu lugar ao monoteísmo, em que todo poder foi concedido a um deus único, que a imagem do pai primevo passou a ser tanto adorado como temido: “somente assim foi que a supremacia do pai da horda primeva foi restabelecida e as emoções referentes a ele puderam ser repetidas” (ibidem, p. 147).

Esses modelos garantiram a vida em comunidade através da renúncia à pulsão, de modo que a “renuncia instintual sob a pressão da autoridade substitui e prolonga o pai” (ibidem, p. 134). Entretanto, as forças inibidoras à satisfação individual, que eram operadas por fatores externos, sofreram um processo de internalização que originou uma diferenciação no ego e a construção de uma instância que confrontava o restante do ego num sentido crítico. Desse modo, o supereu é a instância que perpetua as proibições e censuras exercidas antes pelo pai; e ao cumprir esses mandamentos a criança espera a recompensa pelo amor (ibidem, p. 132).

Considerando o processo que leva à renúncia pulsional e ao recalque, compreendemos que através deste a identificação com o pai na primeira infância se prolonga com a internalização das ordens e proibições, por meio do supereu. Por outro lado, os desejos incestuosos ou incompatíveis com o eu são suprimidos. Contudo estes conteúdos que foram recalcados e que, portanto, se tornaram inconscientes, podem voltar a se manifestar, por exemplo, através dos sintomas:

Em algum ponto fraco, ele abre para si outro caminho ao que é conhecido como satisfação substitutiva, que vem a luz como sintoma, sem a aquiescência do ego, mas também sem sua compreensão. Todos os fenômenos da formação de sintomas podem ser justamente descritos como o ‘retorno do reprimido’. Sua característica distintiva, contudo, é a deformação, de grandes conseqüências, a qual o material que retorna foi submetido, quando comparado com o original (ibidem, p. 141).

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Texto de Lêda Guimarães "Te Devoro"


No link acima do facebook tive acesso a um texto de Lêda Guimarães, psicanalista da AMP-EBP, que segue abaixo:

"As neuroses contemporâneas desafiam os analistas. O declínio da operatividade do NP na configuração simbólica da nossa época abre as comportas para um gozo feroz que conduz facilmente à mortificação. O imaginário floresce num esforço espontâneo da estrutura subjetiva para tentar fixar uma suplência, mas o reinado da imagem do Eu não contém os estragos desse desvario.

Se do lado dos homens a incidência do autismo cresce em proporções alarmantes - engendrando homens psicóticos que já nascem mortos como sujeito, pois que nem sequer alcançam a alienação especular - do lado das mulheres a tristeza se alastra - aspirando no poço escuro da desistência da vida a magnífica imagem atual d´A Mulher-Toda linda, sensual, poderosa.

Os instrumentos clássicos dos analistas para operar uma redução de gozo - a interpretação como enigma, a sessão curta, o corte, o silêncio e o semblante de neutralidade - não operam nenhum efeito analítico nessas neuroses atuais, pelo contrário, expulsam os demandantes dos seus consultórios, deixando-os desabrigados diante da melodia ilusória do canto da sereia das Terapias Cognitivas Comportamentais, estas que amordaçam mais e mais a dimensão viva do desejo sob o império do Eu. Desse modo, o cogito cartesiano 'penso, logo existo' revela sua verdadeira face no predomínio das defesas obsessivas: 'penso, logo morro'.

Como oferecer e acolher esses sujeitos no ato analítico? Ato que vivifica a dimensão faltante do amor e do desejo, instituindo um laço social que resgata os sujeitos da solidão mortífera do gozo. A partir dessa questão, apresentarei nesse trabalho alguns norteadores, a partir do que venho me deixando ensinar em minha prática psicanalítica com as mulheres contemporâneas.

As estratégias na transferência se impõem como o lastro que fixará os efeitos da tática utilizada pelo analista no discurso do sujeito. As estratégias na transferência, quando aliadas a uma política dirigida para o real do gozo, tomam ao seu encargo o trabalho de abertura gradativa da dimensão da falta no Outro. O que não poderá ser instituído nessas neuroses pela via do mutismo do analista, pois seu silêncio, longe de introduzir a dimensão enigmática do desejo do Outro, incide sobre esses sujeitos como um imperativo superegoico mortificante: "você deve estar pensando que eu não tenho jeito mesmo".

Portanto, as neuroses contemporâneas convoca o analista para o uso de estratégias na transferência que reduzam a potência do Outro quase absoluto em seu imperativo superegoico de gozo. O que requer do analista a oferta dum semblante de leveza, docilidade, amorosidade, dedicação, gentileza."


É muito interessante e importante o texto de Lêda para o cenário da psicanálise nos dias de hoje tão marcada pela visão antiquada do analista mudo diante do analisante, e das sessões que não passam de 15 minutos. As sessões curtas, a neutralidade do analista - cheguei a ouvir dos colegas iniciantes na psicanálise que devíamos fazer "cara de empada", o que me causou riso -, e o silêncio, como nos diz Lêda, e acho que isso é o que é mais importante, NÃO produzem efeitos analíticos. Justamente o que possibilita efeitos clínicos é o acolhimento, o interesse pelo sofrimento psíquico daqueles que estão ali, e uma insistência desejante para que falem...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"Complexo de Édipo" por Salvador Dalí


Nieves Sorias, psicanalista do Campo Freudiano, em seu livro "Inhibición, Síntoma y Angustia"  faz uma análise precisa do quadro "Complexo de Édipo" de Salvador Dalí.

Encontramos nesse quadro uma forma imprecisa, difícil de definir, amorfa, que está esburacada, com algumas fissuras e manchas. Nieves Sorias assinala que essa figura evidencia a estrutura neurótica.

Por outro lado no quadro aparece um objeto, um cetro com plumas, que segundo Nieves Sorias, é um emblema da queda do pai, do pai morto. No final da pintura de Dalí encontramos Édipo após matar o pai se dirigindo ao horizonte.

Ainda abaixo da estrutura que se encontra no centro do quadro encontramos um pequeno objeto caído, também difícil de definir por ser amorfo, que deixa uma sombra sobre a estrutura. Há também uma figura humana semi-esquelética, indefinida a respeito do sexo, que segundo Nieves Sorias encarna por excelência o que é o sujeito neurótico em sua indefinição, sem rosto, e no lugar da cabeça está um vazio, onde podemos localizar a dimensão da pergunta, o que Lacan localiza em seu grafo do desejo como a pergunta sobre o desejo do Outro: "O que o Outro que de mim?".

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O pai mítico de "Totem e Tabu"

 



Freud escreveu o texto "Totem e Tabu" em 1912-1913 para falar do pai mítico, o pai da horda primeva. Sabemos que a função paterna é fundamental para a constituição da neurose, e sua não operatividade para a constituição de uma estrutura psicótica.

Freud retoma Charles Darwin, o qual apresentou uma hipótese acerca do estado dos homens primitivos, para desenvolver sua teoria do pai primordial. Segundo Darwin, em um período remoto, os homens viviam em grupos ou hordas, onde o macho mais velho e forte dominava os outros e impedia a promiscuidade sexual (Darwin apud Freud, ibidem, p. 131).

Com base nisso Freud descreve o tipo mais primitivo de uma organização social: a horda primeva. O mito do pai totêmico expressa a violência deste pai da horda primeva e seus ciúmes, ele possuía todas as mulheres e as proibia aos demais membros da tribo. Para tal, expulsava os filhos quando chegavam à idade adulta para que não fossem uma ameaça ao seu domínio.
Freud entende que, em algum momento, os filhos expulsos da tribo se reúnem e retornam à horda para matar e devorar o pai. Para terem acesso ao gozo interditado pelo pai, os filhos assassinam esse pai terrorífico que desencadeava angústia. Ao matá-lo, os irmãos colocam fim à horda patriarcal, mas ao devorá-lo se identificam com o pai primitivo com o intuito de adquirir sua força. No banquete totêmico eles repetiamm e comemoravam em grupo esse “ato memorável e criminoso, que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições morais, da religião” (ibidem, p. 145).

Desse modo, o sentimento de culpa que poderia advir desse ato é aliviado porque todos do clã participam da refeição. Porém a comunidade de irmãos não teve sucesso na organização da sociedade, na medida em que são tomados por um grande sentimento de culpa diante da irrupção, sob a forma de remorso, do sentimento de afeição recalcado, da ambivalência amor-ódio em relação ao pai. Ao colocarem o ódio em prática através do assassinato do pai, o amor que estava recalcado surgiu sob a forma de remorso. Esse sentimento de culpa fez com que o pai se tornasse mais forte do que quando era vivo. Como tentativa de solução ao sentimento de culpa, os filhos instituem novas leis, entre elas a proibição do ato criminoso através da proibição da morte do totem confirmado como substituto do pai: “criaram assim, do sentimento de culpa filial, os dois tabus fundamentais do totemismo, que, por essa própria razão, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos reprimidos do complexo de Édipo: o homicídio e o incesto” (ibidem, p. 147).

Assim, observamos que a cultura e a organização social não foram alcançadas com a morte do pai, somente com o pacto feito entre os irmãos, baseado na renúncia e na partilha. Desse modo, foi necessário que eles deificassem o pai morto para resgatar os tabus e restrições morais necessárias à vida civilizada, assim como Freud afirma nesse texto monumental e repete tempos depois nos textos “Psicologia de grupo e análise do ego” (1921), “O ego e o id” (1923a) e “Moisés e o monoteísmo” (1939).

Através desse mito, Freud pôde demonstrar como o pai devastador primitivo transforma-se no Pai simbólico que dita os códigos da Lei moral e que funciona como aquele que reforça as exigências do supereu, através do cumprimento dos mandamentos e das regras sociais.