domingo, 18 de novembro de 2012

A "mascarada" feminina [Lêda Guimarães]

 
Atras de uma máscara outra máscara e mais outra máscara e mais outra máscara... no vetor infinito do feminino inalcançável por qualquer semblante...
Não dá para 'ser' mulher sem máscaras, senão as mulheres residiriam no inefável de si mesmas.
Assim a 'mascarada' feminina é um recurso inevitável e essencial para constituir um laço com o Outro, como um modo de se fazer 'ser' para o Outro.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Tratamento psicanalítico de crianças


Atualmente a clínica com crianças tem alcançado demandas crescentes. Acredito que isso ocorre muito em função do modo de vida no contempoâneo, da mudança de padrões, modelos e referências. Ao invés da brincadeira nas ruas, da transmissão através das palavras, observamos na atualidade o predomínio da tecnologia, das imagens em detrimento da palavras, e do estímulo cada vez maior das crianças, o que causa uma queixa recorrente dos pais em relação aos seus filhos serem "hiperativos" ou terem "deficit de atenção".

Contudo, não devemos nos esquecer da psicanálise como uma ferramenta teórico-prática fundamental para o tratamento de crianças, através justamente da palavra.

Pequisando no google achei um artigo muito interessante de Cássio Miranda, Professor do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais, sobre A CLÍNICA DA CRIANÇA E A SUPERVISÃO EM PSICANÁLISE: AVANÇOS E IMPASSES, onde diz que a Escola de Lacan vem nos ensinar que não há uma Psicanálise de Adultos e uma Psicanálise de Crianças, mas uma Psicanálise que lida com sujeitos do Inconsciente, buscando desvendar a novela fantasmática na qual o Sujeito encontra-se enredado:

"Entretanto, na psicanálise com crianças é sempre preciso a convocação de uma fala dos pais. Uma fala que possibilite, através da entrevistas preliminares, verificar que lugar a criança ocupa no desejo dos pais, que depósitos e projeções os pais fazer sobre a criança e o que a criança faz com tudo isso, ou seja, quais os ganhos secundários que ela obtém em termos de gozo.Para tanto, é necessário fazer uma distinção entre aquilo que os pais dizem ao Analista, de seus fantasmas, desejos e construções em torno da criança e entre o que a criança organizou em sua cabeça."

Efeito de que o tratamento das crianças inclui o entendimento do lugar que a criança ocupa no desejo dos pais, no que ela encarna como sintoma do casal parental, é que muitas vezes quando o tratamento da criança está evoluindo, os pais simplesmente tiram a criança da análise e arranjam uma desculpa qualquer para não ter que se haver com seu próprio sintoma...

 


domingo, 16 de setembro de 2012

Algumas considerações sobre o amor, a paixão e o afeto



VIEIRA, M. A. . Algumas considerações sobre o amor, a paixão e o afeto. In: Ribeiro, M. A.; Motta, M.. (Org.). Os

destinos da pulsão. Rio de Janeiro: Contra Capa, 1997, v. , p. 131-144.


Marcus André Vieira

Membro da EEP – Membro da EBP

Retirado do site: www.litura.com.br

O afeto, pulsão e gozo
Podemos afirmar, como primeira aproximação, que o afeto é associado por Freud à pulsão e podemos mesmo supor que o afeto para o Freud dos primeiros escritos seria o nome do real, do trauma de uma energia não descarregável, do qual se destacará mais tarde a pulsão. Deixemos de lado, entretanto, esta primeira concepção do afeto em Freud e examinemos dois momentos onde Freud define o afeto com relação à pulsão. O primeiro consiste em seus textos metapsicológicos de 1915. Freud fornece-nos aí a definição de afeto mais difundida na literatura psicanalítica, encontrada, por exemplo, no dicionário de Laplanche e Pontalis.
O afeto é apreendido de um ponto de vista econômico, definindo-se como o caráter subjetivo da descarga de uma quantidade determinada de energia pulsional acumulada. Ele ficará associado à noção de descarga, de movimento e de energia acumulada, sendo tido como um fenômeno da esfera psicofisiológica, que nasce e se realiza no real do corpo, tendo a consciência como centro.
O segundo momento é Inibição, sintoma e angústia. Neste texto, a angústia como afeto básico não terá mais a noção de descarga como traço constitutivo fundamental, mas sim a de sinal do eu com relação a um perigo interno que se liga a uma perda associada à castração. A angústia-sinal é agora a recriação de uma situação traumática mítica, definida como afluxo de "estímulos" e de idéias insuportavelmente desagradáveis porque não podem ser "dominadas psiquicamente". A relação do afeto com a pulsão deixa de ser decisiva. O fato que os dois possam ser descritos como metáforas energéticas passa para um segundo plano pois o que interessa é a angústia como re-criação do trauma fundamental, instaurando a castração como condição estrutural para o fala-ser.
Resumindo as duas concepções de afeto em suas relações com a pulsão temos então:
1.Um processo psicofisiológico de descarga, um extra energético que tem sua origem no corpo, concebido como um corpo real, biológico, de onde se origina a pulsão.
2.Uma reação do sujeito à castração, um processo simbólico exterior ao campo biológico--
corporal, que só se inscreve em uma causalidade fisiológica às custas de modificações
redutoras, pois define-se aqui a partir da relação do sujeito com uma perda.
O percurso de Freud indica que a concepção explícita em 1 deve ser lida a partir de 2.
Ao procedermos deste modo desvela-se a noção de um extra energético que é também uma perda, ou que está articulado a uma perda fundamental. Tanto o afeto quanto a pulsão vão ser compreendidos com relação a este excesso que, como vimos, não tem nenhuma conotação fisiológica ou energética e que associa-se à falta fundamental. Um dos esforços maiores de Lacan foi traduzir conceitualmente esta noção de "excesso de uma falta" através do conceito de gozo. Este, traduz o que da negatividade fundamental do homem aparece (porque coberto pelo simbólico) como um excesso, um "em demasia". Ele distingue-se do prazer, e sua definição só pode ser negativa: ele é aquilo que "não serve para nada"6, que não tem existência no mundo do significante, pois foi expulso quando da instauração do simbólico.
Ele se situa antes da instauração do simbólico, que constitui a distinção entre corpo e alma.
(invertido) Em 1 inscreve-se a concepção platônica, evidente em São Tomás de Aquino assim como em Descartes. Ela comporta um conflito entre corpo e alma, ou seja, entre um sujeito não dividido (que constituirá o sujeito da ciência) e seu corpo - fonte de todas as paixões - que deve ser colocado sob o domínio da razão. Para Freud não há uma oposição entre afetos e razão, ou entre pulsão e razão. A indicação freudiana de que a pulsão está entre somático e psíquico, sugere que ela está além/aquém desta oposição e não em uma posição híbrida no interior dela.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

XXI Jornadas Clínicas - EBP- Rio e ICP-RJ



Convidada internacional: Silvia Salman
AE membro da EOL-AMP


A escuta freudiana revelou a importância psíquica da diferença sexual anatômica. Não existem dois sexos complementares, pois no inconsciente só há um sexo: o masculino. O feminino não encontra uma representação significante e a diferença morfológica não é suficiente para localizar o Outro sexo, de tal modo que para os psicanalistas a questão sobre o sexo não é a questão do gênero. O desejo da mulher está em jogo na relação com o parceiro sexual, seja homem ou mulher. A surpreendente expressão de Lacan “A mulher não existe” denota o impossível da proporção entre os sexos. O feminino é não-todo regulado pela lógica da castração edipiana que permite a assunção do próprio sexo. Quais são as manifestações desse “não-todo” hoje?
Há uma dimensão do feminino que vem se tornando pregnante na nossa cultura e que é preciso levar em conta na direção dos tratamentos. Isso diz respeito, por um lado, a uma tendência à infinitização do gozo em alguns sintomas contemporâneos que refletem uma patologia da ordem da adição. Por outro lado, há um aspecto do feminino na atualidade que se verifica na criatividade das soluções singulares, que não decorrem de uma norma para todos, para lidar com o real.
As XXI Jornadas clínicas da EBP-Rio, em parceria com o ICP-RJ, apresentarão as contribuições dos psicanalistas de nossa comunidade em relação aos eixos temáticos propostos.
Os autores deverão indicar em qual dos eixos temáticos seu trabalho se insere. A data limite para o seu encaminhamento é 31 de agosto. Os trabalhos deverão ser enviados online pelo site http://www.ebprio.com/boletins/outubro/envio_trabalhos.asp. Cada trabalho deve conter no máximo 4.000 caracteres (com espaços).
Local
Centro de Convenções Bolsa do Rio
Praça XV, N. 20, Centro, Rio de Janeiro
Coordenação Geral
Angela C. Bernardes e Rodrigo Lyra Carvalho
Comissão Científica
Cristina Duba (Coordenadora) | Ana Lucia Lutterbach Holck | Angélica Bastos
Glória Maron | Ruth Cohen
Comissão Organizadora
Adriana Lipiani | Angélica Tironi (coordenação de infraestrutura) | Lydia Vasconcellos | Magda Delecave | Monica Rolo | Roberta Assunção | Rodrigo Fraga | Ronaldo Fabião (coordenação de tesouraria) | Sandra Landim | Sarita Gelbert (coordenação de comunicação) | Vanda Assumpção Almeida (coordenação de comunicação) | Vânia Gomes (coordenação de infraestrutura

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Regulamentação da psicanálise no Brasil

Breve Histórico por Romildo por Romildo do Rêgo Barros - Psicanalista da EBP-RJ

Houve no Brasil, nas últimas décadas, várias tentativas de regulamentação da profissão de psicanalista. Todas têm sido até agora interrompidas em algum ponto dos trâmites parlamentares, em geral por não obterem consenso, nem entre os parlamentares, nem entre os experts que porventura tenham dado suas opiniões, e nem entre os próprios psicanalistas. Foram iniciativas que têm tido até agora um efeito quase fatal, o de desagradar a todos. Mas sempre recomeçam, periodicamente. E visam diretamente a psicanálise, e não, como vem ocorrendo na Europa, o vasto universo das psicoterapias. Talvez possamos explicar esta particularidade pelo fato de que no começo essas iniciativas foram direta ou indiretamente inspiradas pela IPA brasileira.

Os anos 1970 foram particularmente pródigos em projetos de lei que visavam dar ao exercício da psicanálise um estatuto legal, prevendo a formação mínima do psicanalista e traçando limites para o exercício da profissão.

Só para citar duas das propostas surgidas nessa época: uma delas, em 1975, exigia dos candidatos que cumprissem as exigências e condições das sociedades da IPA, para poderem ser reconhecidos pelo Estado como psicanalistas, enquanto uma outra, quatro anos mais tarde, previa a criação de cursos universitários de psicanálise, que teriam – sem dúvida por analogia com os cursos de medicina – uma duração de seis anos, após os quais o aluno teria o pleno direito de exercer a profissão.

Essa efervescência tinha como pano de fundo um confronto entre médicos e psicólogos, os primeiros reivindicando a exclusividade da prática psicanalítica, e os últimos buscando legitimar as suas efetivas práticas clínicas, julgando-se autorizados pela lei federal n° 4119, de 27 de agosto de 1962, que regulamentou o exercício da profissão de psicólogo e lhes reservou a exclusividade no uso de “métodos e técnicas psicológicas”.

Para muitos psicólogos, foi fácil incluir nessa prerrogativa a prática da psicanálise, considerada como uma espécie de extensão natural da psicologia clínica, ou como uma variante psicoterápica: assim sendo, qualquer regulamentação seria, não um erro, mas uma redundância. Ou um equívoco, como se expressou certa vez o Conselho Federal de Psicologia

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sobre a direção do tratamento em psicanálise

Freud, desde o início de suas investigações teóricas e clínicas, se preocupou em orientar os profissionais em relação a direção do tratamento dos pacientes. Ao longo de seus textos observamos como pontua a importância de se traçar o diagnóstico diferencial para a orientar a direção de tratamento a partir da escuta das particularidades do sintoma em cada caso.

Em “Sobre o início do tratamento”, Freud (1912, p. 140-154) destaca a sensibilidade de escuta do psicanalista na condução do tratamento. Segundo ele, o “exame preliminar” – que podemos comparar às entrevistas preliminares – permite fazer um diagnóstico diferencial entre neurose e psicose. Contudo, somente após o estabelecimento da transferência os analistas devem começar a interpretar os pacientes e trabalhar no processo de tornar consciente o inconsciente, conforme afirma Freud.

Em outro texto, intitulado “Terapia analítica”, Freud (1916-17, p. 440-51) assinala que a psicanálise se propõe a tratar os estados neuróticos e que sua influência se baseia essencialmente na transferência e não na sugestão direta. Ele acrescenta que enquanto o método hipnótico utiliza a sugestão e procura encobrir e dissimular os conteúdos da vida mental, o método analítico se propõe a expor e eliminar o sintoma, adotando como base a transferência. A função do tratamento é desfazer as resistências internas, ou seja, o conflito entre o eu e a libido. Dessa maneira, se considera que uma análise esteja no fim “quando todas as obscuridades do caso tenham sido elucidadas, as lacunas da memória preenchidas, e descobertas as causas precipitantes das repressões” (ibidem, p. 453). Após reconstituir o conflito de onde surgiram os sintomas e conduzir a um resultado diferente, surge em lugar da “doença verdadeira” a “doença transferencial”, ou seja, a neurose de transferência. De modo que:

Nosso trabalho terapêutico incide em duas fases. Na primeira, toda a libido é retirada dos sintomas e colocada na transferência, sendo aí concentrada; trava-se a luta por esse novo objeto e a libido é liberada dele (...) Mediante o trabalho da interpretação, que transforma o que é inconsciente em consciente, o ego se amplia a custa desse inconsciente; por meio do conhecimento, ele se torna conciliador para com a libido e disposto a conceder-lhe alguma satisfação, e sua recusa às exigências da libido diminui mediante a possibilidade de derivar uma parte da mesma através da sublimação (...) Talvez possamos tornar ainda mais clara a dinâmica do processo de cura, se eu lhes disser que retemos a totalidade da libido que foi retirada do domínio do eu, atraindo uma parte dela sobre nós próprios, mediante a transferência (ibidem, p. 455-56).