quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um novo amor pelo pai.


Éric Laurent, no artigo “Um novo amor pelo pai”, publicado na Opção Lacaniana n°46  situa o avesso da pluralização do Nome-do-Pai: o pai avaliado do ponto de vista de sua autoridade. “Acabou-se o pai da autoridade, da tradição, do patriarcado, da Lei. É chegado o tempo da paternidade contratual, negociada, responsável” (p.20).

Segundo Laurent, Lacan desconstruiu o “pai” freudiano segundo as dimensões real, simbólica e imaginária. O primeiro Nome-do-Pai em Freud foi o pai do totem, apresentado no texto “Totem e tabu”. Nesse texto Freud fala de um pai simbólico, pai de amor, e de um pai imaginário, do ódio e da reprovação.

Já Lacan, após propor a pluralização dos nomes do pai em sua obra, a partir do Seminário A angústia, se propõe a definir o Nome-do-pai a partir de uma função, ou seja, há versões do pai, uma por uma. Assim “não se trata mais de partir do nome, mas sim do objeto a” (p.23). Essa péreversion, versões do pai, ou perversões do pai, tratam tanto de que há uma versão do pai para cada sujeito em particular, como uma perversão do pai de se ligar aos objetos a de uma mulher. Um pai-versamente orientado é aquele que faz da mulher seu objeto a causa de desejo. Enquanto a mulher se ocupa de outros objetos a: os filho. Na medida em que o pai se liga aos objetos a de uma mulher é que “podemos falar de um entrecruzamento da pai-versão com a perversão materna” (p.23) e assim surge o chamado “cuidado paterno”, o cuidado que o pai tem com esse objeto a da mulher.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um curto circuito na fantasia


Acontece que na atualidade o sujeito do inconsciente, sujeito dividido, acaba submergindo quando os sujeitos se lançam no uso excessivo de drogas. Se antigamente o uso de drogas era marcado pelo simbolismo, pela busca de sentido, como o uso de drogas para buscar a espiritualidade, ou como símbolo da contracultura e da revolta, na atualidade há uma perda de sentido, há um vazio, é a era da toxicomania banalizada (Naparstek. F., 2011. Pharmacon 12).

O uso desmedido do álcool e de outras drogas é um ato de ruptura com o Outro (sexo) para fazer um com a droga; é um curto circuito na fantasia, uma ruptura com o gozo sexual, fálico, em prol de um casamento com a droga. Para que o sujeito não tenha que lidar com sua própria falta, com sua divisão, ele coloca ali a droga, como um tampão.

Essa satisfação autoerótica que o sujeito obtém com a droga, causa a ilusão de que se está completo, de que não precisa mais de nada. Essa ilusão de completude acaba afastando os toxicômanos e alcoolistas de suas famílias, trabalho, amigos. É difícil para aqueles que estão em torno dos toxicômanos ou alcoolistas perceberem quando o uso se torna um abuso e quando estes precisam de tratamento, entender que o paciente passou de consumidor a consumido pelo objeto droga, produto da sociedade de consumo.

Não se trata de um trabalho fácil nem rápido quando o objetivo é tratar toxicômanos e alcoolistas. Não é simplesmente comunicar a ele que tem que parar de usar em função de sua saúde e de suas perdas. Mas a partir da redução, da redução de danos, ajudá-lo a ir se re-apropriando das dúvidas, das perdas, de sua própria divisão que é o que o caracteriza como sujeito do inconsciente.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Ainda sobre a ciência e a psicanálise


Da última vez no blog escrevi sobre como a psicanálise reescreve o cogito cartesiano “Penso, logo existo” ou “Penso, logo sou” para o “Sou onde não penso”, “Penso onde não sou”. É uma forma de afirmar o inconsciente e contrapô-lo a consciência.
 
O Inconsciente é o que revela o sujeito como dividido, como nos elucidou Freud, através dos chistes, atos falhos, sonhos. Por isso a psicanálise prima pelo método da atenção flutuante, pois o analista deve estar atento para os equívocos do paciente, onde ele vacila e emerge as formações do inconsciente, ali onde ele fala uma palavra querendo dizer outra, ou um não, que significa um sim. Lembro que fui atender um paciente na semana passada na emergência de um hospital, ele estava há 8 noites sem dormir, e me disse que não era por causa da ansiedade pré-cirurgia. É assim: no inconsciente um não pode significar um sim, não há uma ordem no inconsciente. Ele é atemporal, fora de ordem e se revela por meio da consciência de forma velada, afinal não íamos suportar tudo que o inconsciente tem a nós dizer.

A fantasia que temos, ou melhor, que construímos, são, assim, modos que esse sujeito dividido, sujeito do inconsciente, tem para lidar o mundo. A fantasia nos permite existir no mundo! Sem ela só há o real, e também não estamos preparados para lidar com ele! Só com análise, muita análise! A fantasia tem sempre relação com o objeto. O objeto em suas cinco formas, como nos disse Lacan no Seminário 10, oral, anal, falo, olhar e voz. Para que se caminhe, em análise, para o atravessamento da fantasia é preciso que se inicie pelo sintoma, ou seja, daquilo que o sujeito se queixa, muitas vezes o que aparece no corpo ou fala por ele, por exemplo dores de cabeças intermináveis, alergias intratáveis, prisões de ventre, mal-estar, insônia etc. A lista é interminável, mas os resultados se parecem: quando acaba o sintoma vem a angústia. Angústia porque o sujeito vai se aproximando mais de sua divisão, de sua relação com o objeto.
 
Para cada caso, então, um tratamento singular, orientado pela psicanálise, orientado pela estrutura clínica! Principalmente para quem está inciando, é preciso ter cautela, não pensar que já sabe do diagnóstico de antemão. As entrevistas preliminares servem para isso, orientar o diagnóstico e o tratamento, por isso a importância dos estudos e supervisões! A psicanálise é teórico-clínica e nos exige isso, a cada passo uma parcela a mais de investimento.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Notas sobre a ciência e a psicanálise

Lendo um artigo intitulado “Respostas aos estudantes de filosofia sobre o objeto da psicanálise” de Lacan (1966), me fez lembrar o quanto pode se confundir a psicanálise com um misticismo ou obscurantismo quando se interroga sobre a presença da consciência na psicanálise. No filme “Um método perigoso” que traz cenas muito interessantes do diálogo entre Freud e Jung e sua posterior cisão, mostra como Freud adverte Jung do perigo da psicanálise ser confundida com o misticismo, por isso a importância e o rigor de nos atermos aos princípios básicos da psicanálise, que no início Freud denominava como a base sexual, ou diríamos da castração, presente na formação da estrutura neurótica.

Lacan relê a afirmação filosófica “Penso, logo sou”, de Descartes, ao afirmar que o objeto da psicanálise não é o homem, mas o que lhe falta, ou seja, a falta de um objeto, que é o que caracteriza o sujeito como dividido. O sujeito é onde ele não pensa! O que denuncia a dimensão do Inconsciente.

“Ao ser considerado somente no tempo, este sujeito do “eu penso” revela o que ele é: o ser de uma queda”.

O sujeito da psicanálise é o sujeito do Inconsciente.

Diz Lacan que ainda devemos nos atentar para o perigo da redução do sujeito ao ego, o que ocorre com as ditas psicologia, “este acessório sem uso, chamado ego, que só serviu de insígnia à psicologia desde que ela se quis um pouco mais objetiva...”. A verdadeira natureza do ego em Freud se refere a identificação imaginária.

Não é a sua consciência que o sujeito está condenado, mas a seu corpo, que resiste de muitas maneiras a realizar a divisão do sujeito.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Mulheres de hoje: figuras do feminino no discurso analítico




DISPOSIÇÃO PARA O GOZO FEMININO

Crônica publicada no jornal A Tarde, 27/nov, sobre a conferência de Eric Laurent no XIX EBCF 'Mulheres de Hoje', escrita por Francisco Antônio Zorzo, Professor da UFBA:

"Em 23 de novembro, no Encontro do Campo Freudiano, o psicanalista francês Eric Laurent fez um longo discurso para uma grande platéia de cerca de mil pessoas. Sua reflexão traçou um longo raciocín...
io, desenvolvendo um arco a respeito da ampliação do papel social e político da mulher contemporânea. Chegou, no final, à conclusão alentadora que vivemos uma etapa de feminilização do mundo. Nesse processo, que tem sérias consequências, estão implicados fenômenos como as mudanças na formação familiar (p. ex., expansão da família mono-parental), queda do patriarcado no ocidente, depressão, e outros temas correlatos.
Tomando por referência as últimas eleições para presidente nos Estados Unidos, ele começou sua fala avaliando que as mulheres e latinos foram o fiel da balança, marcando uma diferença na votação. Uma faixa das mulheres e dos votantes, que estão imprimindo novos comportamentos, foram contra o voto conservador e elegeram Obama em 2012. Esses eleitores são os que desenvolvem novos estilos de vida e de gozo que merecem ser considerados.


As taxas de pessoas isoladas e separadas aumentou e a faixa etária caiu. Segundo Laurent, enquanto que antes os mais velhos ficavam nessa situação, hoje a faixa etária de celibatários chega à casa dos 35 anos, da fase da libido-cheia, o que significa uma mudança de estilo e de ideais da sociedade.

Na sociedade atual, o indivíduo pensa em “marcar pontos”, mais do que desfrutar a vida.
O orgasmo demandado é o mais direto possível, entre a vagina e o cérebro, tal como o caso de Naomi Wolf, descrito no seu livro sobre o sexo feminino, em que relata sua biografia. Laurent lembrou das cirurgias sexuais e o caso da escritora que operou do nervo na altura da 5ª. Vértebra lombar, supostamente para ter o orgasmo ampliado.
Esses fatos enumerados acima, o que dizem para a psicanálise? Para responder, Laurent recordou que Lacan nos anos 1960 colocou 3 perguntas que tem a ver com a questão: 1) sobre a entropia/agitação dos casamentos de homens homossexuais e lésbicas. 2) sobre o contrato/casamento, ou ainda a irredutibilidade das mulheres ao contrato. 3) proibição do incesto paiXfilha.

Em outra passagem em Salvador, em evento de psicanálise, Laurent já falara do analista, como um ser que discute a experiência das paixões. Seguindo essa maneira de se engajar no tema, ele se posiciona tal como Pascal frente às emoções e diferente de Montaigne, que gostaria de existir sem paixões. O analista é um ser que experimenta as paixões, as tentações, colocando-se o mais próximo possível daquilo que divide o sujeito.
 Aqui, nestas poucas linhas é difícil retomar todos as nuances da conferência. Mas, em resposta às perguntas acima, sobre homossexuais e lésbicas, Laurent foi na linha de Jacques Lacan, que via uma dissimetria entrópica de comportamentos. A psicanálise parece fazer um elogio a um certo tipo de relacionamento que ainda procura regularidade e duração no amor. Um caso que Laurent falou foi o da escritora Marguerite e sua amante, que vivia isolada no frio durante 6 meses por ano, mas que tinha uma vida produtiva com muita calma amorosa.

Laurent lembra o caso da filha de Sigmund Freud, Ana, e seu conhecido caso com Dorothy. Houve o reconhecimento de certas experiências sob o olhar de Freud. Laurent assinala aqui a tese de que a mulher quer manter o outro falando sem fim na relação. Esse é um traço da erotomania da mulher que Freud e Lacan perceberam cada um ao seu modo. Mas, Lacan não deixou de reconhecer que a mulher pagaria um preço por isso, ou seja a depressão e a angústia. A fórmula da dor no amor feminino é ampliada por Lacan para o lado da depressão.
Esses sentimentos depressivos formam um transtorno novo, um novo pacote cultural. Laurent, lembrou que no Japão décadas atrás não havia depressão, mas depois da forte onda de medicalização passou a ser validada. A depressão seria, para a psicanálise, uma forma de desidentificação. Essa desidentificação também ocorre no final da análise, que pode gerar um comportamento do tipo bi-polar. Mas, quanto a isso seria bom ir com bastante calma, pois uma situação de desidentifação muito radical, faz um curto-circuito, que deixa o sujeito tombado.

A questão do contrato/casamento para a mulher de hoje, foi exemplificada através do caso recente do general americano, cuja recente e polêmica biografia indica uma vida com várias mulheres. Tirando a esposa, as outras mulheres aceitavam estar fora do contrato, assumindo a subversão das convenções, sem maiores problemas, desde que mantida a sedução em jogo. As mulheres do general se colocam fora do contrato, seriam para Laurent, como que “free-lancers”, mantendo a situação sem maiores embaraços, desde que se perpetuasse o laço sexual e a libido e se mantivesse o outro falando.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

As dificuldades do Psicoterapeuta no mercado de trabalho

Artigo publicado em "O Estado de São Paulo" sobre as dificuldades do exercício da profissão de Psicoterapeuta no mercado de trabalho:
 
No dia 23 de novembro, o New York Times publicou o artigo What brand is your therapist?, no qual a escritora e terapeuta iniciante Lori Gottlieb conta das dificuldades no exercício de sua profissão.
Após seis anos de estudos e treinamento, Lori acreditava que, ao se estabelecer profissionalmente, logo estaria auferindo a satisfação esperada na aplicação de seus conhecimentos e recebendo a merecida remuneração que compensaria os investimentos em tempo e dinheiro despendidos nos estudos. Mas suas expectativas esbarraram com uma acabrunhante falta de clientes, que logo soube ser um problema que afligia não só a ela como a muitos colegas, até mesmo os mais antigos e veteranos. Isso se devia em grande parte à política dos planos de saúde, que deixaram de reembolsar os gastos com este tipo de tratamento ou a restringir ao mínimo o número de sessões por eles cobertas, o que não ocorria com o tratamento medicamentoso. Só em 2005, a indústria farmacêutica gastou US$ 4,2 bilhões em publicidade direta ao consumidor e US$ 7,2 bilhões em promoções para a classe médica - o dobro do que é gasto em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos.
Lori tomou conhecimento de que, para manter o trabalho, muitos colegas recorriam ao auxílio de marqueteiros e publicitários, cuja estratégia maior residia na criação de apelos (marcas ou brands) que dotavam o terapeuta de um diferencial que o distinguia da massa de colegas, tornando-o mais visível para o grande público.
Na opinião dos marqueteiros, as pessoas se interessariam menos pelo enfoque tradicional da psicoterapia, desejariam soluções rápidas e fáceis para seus problemas e estariam susceptíveis a propostas mais atraentes. Por exemplo, um profissional não mais deveria se apresentar como "terapeuta familiar", o que pareceria "genérico e superado", mas usar algo como "perito em ajudar famílias modernas a navegar na mídia digital", alguém capaz de lidar com o cyberbullying e o sexting (palavra criada a partir de sex e texting, que designa a mania recente adotada por adolescente de postarem textos e fotos eróticas suas na internet).
Mais ainda, para não ser considerado "frio e distante", o terapeuta precisaria mostrar-se o mais aberto possível, falando de sua própria vida. Por exemplo, deveria expor nas redes sociais, onde seus anúncios seriam veiculados, se tem filhos, se é gay, se sofre de uma doença crônica, se provém de uma família de pais divorciados, se perdeu recentemente um ente querido, se tem ou teve problemas alimentares, etc. Tais revelações proporcionariam a aproximação de pacientes com problemas semelhantes.
Lori fica escandalizada, pois todas essas orientações vão diretamente contra tudo aquilo que aprendera na escola e nas supervisões clínicas. Tal abertura cria uma atitude sedutora de falsa intimidade do terapeuta para com o cliente, além de dificultar o estabelecimento dos movimentos transferenciais, essenciais para o desenvolvimento do processo terapêutico.
O relato tragicômico de Lori não é muito diferente do que acontece no Brasil e mostra algo que é próprio do começo da vida de qualquer profissional liberal. Mas aponta para fatores antes inexistentes, como a mudança radical introduzida no mercado pelos planos de saúde, que reduziram ao mínimo a prática privada da medicina ou da psicologia, além de ressaltar que, no campo da psiquiatria, os planos de saúde dão prioridade ao tratamento medicamentoso, muito menos custoso do que o tratamento psicoterápico.
Mas o que no relato é chamativo é a aplicação direta de apelos comerciais característicos de produtos de consumo a uma prática médica-psicológica, com o objetivo de melhorar sua posição no mercado de trabalho.
O espírito da publicidade é negar as limitações, as dificuldades, as impossibilidades que são inerentes à vida, vendendo a ideia de que tudo é possível - desde que se consuma os produtos por ela anunciados, é claro. O objeto de consumo é um fetiche que supostamente garante bem-estar imediato e definitivo àquele que o possui, protegendo-o de toda e qualquer percepção de infelicidade, incompletude e vazio. Tal ilusão não se sustenta por muito tempo, gerando frustrações que são muitas vezes confundidas com "depressões" a serem medicadas.
Assim, tratar a psicoterapia como um item de consumo não só fere a ética, que estabelece parâmetros estritos sobre como o profissional deve divulgar seus serviços, como é desastroso, pois reforça distorções da realidade que a psicoterapia tem por ofício analisar.
Seria ótimo se houvesse soluções fáceis e imediatas para os problemas que nos acometem. Mas as coisas não são simples. É por esse motivo que, ao invés de oferecer soluções mágicas ao paciente, o psicoterapeuta se dispõe a ajudá-lo a entender a complexidade de seu próprio psiquismo, sua dimensão inconsciente que abriga fantasias infantis ainda vigentes na atualidade, cujos padrões anacrônicos de funcionamento continuam a influenciar seu comportamento, seus relacionamentos pessoais e decisões sem que ele mesmo disso se aperceba. A terapia pode dar-lhe condições para lidar melhor com os impedimentos e perdas inevitáveis que a vida impõe a todos, bem como libertá-lo de inibições e medos imaginários que dificultam o exercício de suas potencialidades. Tudo isso demanda tempo e perseverança no trabalho conjunto realizado pela dupla terapeuta e paciente, mas o alívio buscado por este ao procurar a terapia não precisa esperar pelo término do processo para se fazer sentir. O poder expressar suas dificuldades, a paulatina compreensão de seus conflitos internos proporciona um progressivo domínio sobre o sofrimento e a angústia.
Se a psicoterapia e os hábitos de consumo se constituem como mundos inconciliáveis, há uma incômoda proximidade entre as leis do consumo e o tratamento medicamentoso. Produto da poderosa indústria farmacêutica, ele disputa o mercado usando agressivamente os recursos da publicidade, com o objetivo de induzir um consumo cada vez maior, como a pequena mostra de números citada acima evidencia. Mais ainda, da forma como muitas vezes é apresentada, a medicação em si, o próprio comprimido, aproxima-se perigosamente do objeto fetiche, do talismã cuja posse (ingestão) garante a resolução de todos os problemas.
Essas observações não implicam uma negação da grande importância da medicação psicotrópica nos distúrbios mentais. Antes se opõem aos excessos no uso deste recurso, que muitas vezes levam a uma equivocada depreciação da psicoterapia, ignorando que ela é um inestimável e insubstituível instrumento para o autoconhecimento e bálsamo para o sofrimento do paciente.