domingo, 5 de maio de 2013

A psicanálise do hiperativo e do desatento ...com Lacan

A psicanálise do hiperativo e do desatento ...com Lacan

O que os psicanalistas de orientação lacaniana têm a dizer sobre o diagnóstico de TDAH e seus efeitos sobre os sujeitos? Como o discurso analítico trata aqueles que foram nomeados como hiperativos e/ou desatentos? Essas são questões a que este volume se dedica. A psicanálise do hiperativo e do desatento ...com Lacan, segundo volume da coleção do IPSM-MG (Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais), insere-se na proposta de “abordar temas da atualidade que se constituem em desafios no nosso cotidiano” e apresenta ao público uma contribuição da psicanálise a esse debate.

O lançamento oficial da edição ocorrerá durante a realização do IX Congresso dos Membros da Escola Brasileira de Psicanálise, no Summerville Beach Resort, em Pernambuco, entre os dias 25 e 28 de abril de 2013.

domingo, 21 de abril de 2013

A capital mineira rejeita internação forçada, adotada por Rio e São Paulo, e aposta em política que tenta levar usuário a trocar pedra por álcool e tabaco, até se livrar do vício

Reportagem publicada em Correio Braziliense, 21 de abril de 2013
Por Sandra Kiefer
 
Belo Horizonte - Na contramão da lei que deveria ter sido votada na quarta-feira (18/4) no Congresso Nacional, que prevê a política de internação involuntária dos usuários de crack – já adotada este ano em São Paulo e Rio de Janeiro –, Belo Horizonte tem outra frente de trabalho para lidar com o desafio. Referência nacional da luta contra os manicômios, a capital mineira optou pelo modelo da redução de danos proposto pelo Ministério da Saúde, com a troca da pedra por drogas mais leves, como opiáceos, álcool e tabaco, até conseguir a abstinência total. Na prática, a iniciativa vem apresentando indicadores positivos no Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam-AD) da Região da Pampulha, com adesão de até 40% dos pacientes. O índice é oito vezes maior em relação aos 5% de recuperação obtidos, em média, com a internação dos dependentes químicos.

O problema é o tamanho do desafio e a capacidade de lidar com ele. Desde 2008, BH conta com apenas um Cersam-AD, o da Pampulha, para uma demanda de 2,2 mil moradores de rua, boa parte deles envolvidos com álcool e crack, segundo o Movimento Nacional de População de Rua. Diante da falta de atendimento, estão se formando pequenas cracolândias distribuídas pela cidade, até mesmo em bairros residenciais.

Apesar disso, só em último caso é aceita a internação do usuário de drogas em BH, segundo o secretário municipal de Saúde, Marcelo Teixeira. “É preciso ter clareza de que você pode internar alguém compulsoriamente, mas não pode tratar ninguém compulsoriamente. Ao dizer isso, não estou me posicionando contra a internação. Só defendo que a medida tem de ser eventual e avaliada do ponto de vista clínico”, afirmou.

Mistura

A reportagem do Estado de Minas constatou em vários pontos de uso de BH que muitos dependentes químicos passaram a fazer associação de diversas drogas. Em geral, fumam primeiro cigarros, tomando o cuidado de guardar as cinzas. Elas serão usadas para fazer render a pedra do crack, previamente triturada em porções menores. Antes de queimar a mistura nos cachimbos, os usuários tomam cachaça. “Diante dessa situação, o ponto central da redução de danos será o crack. Se o usuário conseguir largar primeiro o crack, ficando com o álcool e com o tabaco, e em seguida só com o tabaco, seria desejável dentro de uma estratégia de intervenção”, defende Marcelo Teixeira.
A meta do programa é conseguir diminuir os danos causados pela pedra no organismo, resgatando valores e vínculos, familiares ou não, de trabalho e da sociedade. Ao convencer o craqueiro a usar menos pedras por dia, em seguida substituir o vício por tabaco e permanecer apenas com o álcool, os técnicos de saúde ganham a confiança do usuário de drogas, que, ao mesmo tempo, será convencido a se comprometer com um emprego, a resgatar a convivência com os filhos e a retomar hábitos de higiene. Na visão da prefeitura, é o oposto de isolar o usuário de drogas dentro de uma entidade, como já foi feito no passado com doentes mentais, hansenianos e tuberculosos.

Para tentar garantir o sucesso do projeto, além de abordar os usuários de crack por meio das equipes de consultório de rua, oferecendo camisinhas gratuitas e a chance de tirar uma nova carteira de identidade, a PBH está fechando parceria para garantir vagas de emprego subsidiadas, com entidades empresariais como Fiemg e Fecomércio. Além disso, há a proposta de criar duas equipes de abordagem familiar, que visitarão dentro de casa, antes de irem morar nas ruas, dependentes químicos prestes a cortarem os laços com mulheres e filhos. “Quando estiver todo implementado, nosso programa vai ser um dos mais completos do país”, aposta o secretário.

Ponto crítico: você é a favor da internação compulsória?

- Domingos Sávio Lage Guerra, psiquiatra, ex-diretor do Instituto Raul Soares e professor da Faculdade de Ciências Médicas
Sim:
A dependência de crack é muito grave e o sujeito não consegue parar. A droga está devastando o Brasil, aumentando a criminalidade e trazendo um sério problema de mão de obra para o país, repercutindo na construção civil e no comércio. O crack está comprometendo a população jovem. Temos 35 milhões de jovens e um contingente expressivo deles está dependendo do crack, que está destruindo famílias. Também a população de rua está aumentando muito, bem como a quantidade de roubos, furtos e assassinatos relacionados ao uso dessa droga, que é muito mais potente que a cocaína. O estrago provocado pelo crack é muito grave. Seu uso deixa o sujeito paranoico, agressivo e agitado. A entrega à dependência é grande, os usuários estão em risco social e em grave risco de mendicância, com a perda dos vínculos sociais. Só quem tem um usuário de crack dentro de casa pode realmente falar sobre o assunto.

- Alda Martins Gonçalves, professora da Escola de Enfermagem da UFMG, integrante do Centro Regional de Referência em Crack e Outras Drogas
Não:
O uso do crack é um problema individual, familiar e coletivo. O usuário acaba perdendo seu espaço na família e buscando na rua a convivência com outros na mesma situação, o que constitui um grande desafio para a implantação de medidas de atenção aos grupos e de uma política de atendimento aos usuários. O Serviço de Saúde Mental da Prefeitura de BH vem atendendo e buscando a adesão dos dependentes ao tratamento. A abordagem procura ajudá-los a recuperar a autoestima, os laços familiares e a convivência social, para que aceitem o processo de recuperação. Simplesmente internar um usuário não garante sua adesão ao tratamento e pode esbarrar no direito ao livre arbítrio. Se uma pessoa está em risco de morte, intoxicada por drogas, não há que se perguntar se ela quer ser socorrida. O socorro tem de ser prestado, mesmo que exija internação. Isso não significa internação compulsória. Não há garantias de que, depois da desintoxicação, o usuário de drogas vá aceitar o tratamento.

sábado, 16 de março de 2013

Notas sobre a Neurose e a Psicose do livro "O saber delirante" – J.A Miller


Quando comumente se fala que na psicose o sujeito está fora da realidade, ou há uma perda da realidade, é importante retomarmos Freud em suas considerações nos textos “neurose e psicose” e “perda da realidade na neurose e na psicose”.
Freud assinala que tanto na psicose como na neurose há uma perda da realidade. O que difere em relação às duas estruturas é em relação a forma de se reconstruir a realidade. Enquanto o neurótico a faz pela fantasia, o psicótico a faz pelo delírio.
O paranóico edifica de novo a realidade mediante o trabalho de seu delírio, “o que nós consideramos a produção patológica, a formação delirante, é, em realidade, a tentativa de restabelecimento, a reconstrução”.
Esse é um ponto crucial para o tratamento de psicóticos, considerar o delírio como uma tentativa de dar um tratamento ao real, uma tentativa de cura, de construção de uma suplência. Assim, nós, analista, estamos ali, ao lado dos psicóticos, a fim de ser seu secretário, testemunhas de uma reconstrução delirante, de uma nova realidade que os permite suportar o real que os invade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um novo amor pelo pai.


Éric Laurent, no artigo “Um novo amor pelo pai”, publicado na Opção Lacaniana n°46  situa o avesso da pluralização do Nome-do-Pai: o pai avaliado do ponto de vista de sua autoridade. “Acabou-se o pai da autoridade, da tradição, do patriarcado, da Lei. É chegado o tempo da paternidade contratual, negociada, responsável” (p.20).

Segundo Laurent, Lacan desconstruiu o “pai” freudiano segundo as dimensões real, simbólica e imaginária. O primeiro Nome-do-Pai em Freud foi o pai do totem, apresentado no texto “Totem e tabu”. Nesse texto Freud fala de um pai simbólico, pai de amor, e de um pai imaginário, do ódio e da reprovação.

Já Lacan, após propor a pluralização dos nomes do pai em sua obra, a partir do Seminário A angústia, se propõe a definir o Nome-do-pai a partir de uma função, ou seja, há versões do pai, uma por uma. Assim “não se trata mais de partir do nome, mas sim do objeto a” (p.23). Essa péreversion, versões do pai, ou perversões do pai, tratam tanto de que há uma versão do pai para cada sujeito em particular, como uma perversão do pai de se ligar aos objetos a de uma mulher. Um pai-versamente orientado é aquele que faz da mulher seu objeto a causa de desejo. Enquanto a mulher se ocupa de outros objetos a: os filho. Na medida em que o pai se liga aos objetos a de uma mulher é que “podemos falar de um entrecruzamento da pai-versão com a perversão materna” (p.23) e assim surge o chamado “cuidado paterno”, o cuidado que o pai tem com esse objeto a da mulher.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um curto circuito na fantasia


Acontece que na atualidade o sujeito do inconsciente, sujeito dividido, acaba submergindo quando os sujeitos se lançam no uso excessivo de drogas. Se antigamente o uso de drogas era marcado pelo simbolismo, pela busca de sentido, como o uso de drogas para buscar a espiritualidade, ou como símbolo da contracultura e da revolta, na atualidade há uma perda de sentido, há um vazio, é a era da toxicomania banalizada (Naparstek. F., 2011. Pharmacon 12).

O uso desmedido do álcool e de outras drogas é um ato de ruptura com o Outro (sexo) para fazer um com a droga; é um curto circuito na fantasia, uma ruptura com o gozo sexual, fálico, em prol de um casamento com a droga. Para que o sujeito não tenha que lidar com sua própria falta, com sua divisão, ele coloca ali a droga, como um tampão.

Essa satisfação autoerótica que o sujeito obtém com a droga, causa a ilusão de que se está completo, de que não precisa mais de nada. Essa ilusão de completude acaba afastando os toxicômanos e alcoolistas de suas famílias, trabalho, amigos. É difícil para aqueles que estão em torno dos toxicômanos ou alcoolistas perceberem quando o uso se torna um abuso e quando estes precisam de tratamento, entender que o paciente passou de consumidor a consumido pelo objeto droga, produto da sociedade de consumo.

Não se trata de um trabalho fácil nem rápido quando o objetivo é tratar toxicômanos e alcoolistas. Não é simplesmente comunicar a ele que tem que parar de usar em função de sua saúde e de suas perdas. Mas a partir da redução, da redução de danos, ajudá-lo a ir se re-apropriando das dúvidas, das perdas, de sua própria divisão que é o que o caracteriza como sujeito do inconsciente.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Ainda sobre a ciência e a psicanálise


Da última vez no blog escrevi sobre como a psicanálise reescreve o cogito cartesiano “Penso, logo existo” ou “Penso, logo sou” para o “Sou onde não penso”, “Penso onde não sou”. É uma forma de afirmar o inconsciente e contrapô-lo a consciência.
 
O Inconsciente é o que revela o sujeito como dividido, como nos elucidou Freud, através dos chistes, atos falhos, sonhos. Por isso a psicanálise prima pelo método da atenção flutuante, pois o analista deve estar atento para os equívocos do paciente, onde ele vacila e emerge as formações do inconsciente, ali onde ele fala uma palavra querendo dizer outra, ou um não, que significa um sim. Lembro que fui atender um paciente na semana passada na emergência de um hospital, ele estava há 8 noites sem dormir, e me disse que não era por causa da ansiedade pré-cirurgia. É assim: no inconsciente um não pode significar um sim, não há uma ordem no inconsciente. Ele é atemporal, fora de ordem e se revela por meio da consciência de forma velada, afinal não íamos suportar tudo que o inconsciente tem a nós dizer.

A fantasia que temos, ou melhor, que construímos, são, assim, modos que esse sujeito dividido, sujeito do inconsciente, tem para lidar o mundo. A fantasia nos permite existir no mundo! Sem ela só há o real, e também não estamos preparados para lidar com ele! Só com análise, muita análise! A fantasia tem sempre relação com o objeto. O objeto em suas cinco formas, como nos disse Lacan no Seminário 10, oral, anal, falo, olhar e voz. Para que se caminhe, em análise, para o atravessamento da fantasia é preciso que se inicie pelo sintoma, ou seja, daquilo que o sujeito se queixa, muitas vezes o que aparece no corpo ou fala por ele, por exemplo dores de cabeças intermináveis, alergias intratáveis, prisões de ventre, mal-estar, insônia etc. A lista é interminável, mas os resultados se parecem: quando acaba o sintoma vem a angústia. Angústia porque o sujeito vai se aproximando mais de sua divisão, de sua relação com o objeto.
 
Para cada caso, então, um tratamento singular, orientado pela psicanálise, orientado pela estrutura clínica! Principalmente para quem está inciando, é preciso ter cautela, não pensar que já sabe do diagnóstico de antemão. As entrevistas preliminares servem para isso, orientar o diagnóstico e o tratamento, por isso a importância dos estudos e supervisões! A psicanálise é teórico-clínica e nos exige isso, a cada passo uma parcela a mais de investimento.