segunda-feira, 15 de julho de 2013

"Sou toxicômano" - uma nomeação

Por que tantos usuários de drogas ficam fixados na nomeação "sou toxicômano", "sou alcóolatra", "sou crackeiro"?
A resposta a essa pergunta nos ajuda a pensar sobre o que a sociedade pode fazer em relação a esses sujeitos.
Se o pensamos como criminosos, mau-caráter, a solução é policialesca, como muito vemos acontecer em diversas cidades pelo Brasil. Contudo, se pensamos que além de um problema social falamos de um problema de saúde pública, a solução se coloca pela via do tratamento.
E aqui não falamos de uma internação compulsória, que passa ao largo do desejo do sujeito de se tratar. O importante é compreender a função que a droga ocupa na economia de gozo para cada sujeito em particular.
Para a psicanálise  a nomeação "sou toxicômano" é uma resposta a deflação do Nome-do-Pai, ou seja, sua falta de eficácia como significante que nomeie o gozo, que retire o sujeito da posição de objeto de gozo da mãe. Assim, o sujeito fica a procura de algo que o nomeie e encontra na adicção uma identidade, um pertencimento  um grupo social.
"Sou toxicômano" é uma identificação bruta a um significante, "uma resposta que torna o outro consistente de novo e que pretende uma recuperação de gozo", sendo que essa recuperação de gozo ocorre por fora da medida fálica, pois a toxicomania acaba levando o sujeito a um gozo auto-erótico, fora do sentido e fora da fala (Sillitti, D. Sujeto, goce y modernidade: fundamentos de la clínica. Atuel - TyA, 1993, p. 56).

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sobre a questão da "cura" gay

Compartilho aqui uma postagem do facebook da psicanalista Leda Guimarães sobre a questão da patologização da homossexualidade diante da recente aprovação, pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, da proposta que suspende trechos da Resolução CFP nº 001/1999, que veta práticas de patologização da homossexualidade e é considerada um importante marco para a Psicologia e a sociedade brasileiras.
 
A psicanalista cita uma carta de Freud à mãe de um adolescente homossexual em 1936:

"Prezada Senhora,
Deduzo de sua carta que seu filho é homossexual. Estou especialmente impressionado com o fato da senhora não ter mencionado este termo no seu relato sobre seu filho. Posso perguntar-lhe porque o evitou? A homossexualidade seguramente não é uma vantagem ,...
mas não é nada vergonhoso, não é um vício, não é uma degradação, não pode ser classificada como uma doença; nós a consideramos uma variação da função sexual produzida por um certo bloqueio no desenvolvimento sexual.
Muitos indivíduos altamente respeitáveis na antiguidade e também nos dias de hoje, foram homossexuais, muitos homens notáveis de sua época (Platão, Michelangelo, Leonardo da Vinci). É uma grande injustiça e crueldade a perseguição da homossexualidade como um crime. Se você não acredita em mim, leia os livros de Hamelock Ellis.Ao perguntar-me se eu poderia ajudar, suponho que você quer saber se posso abolir a homossexualidade e colocar a heterossexualidade normal em seu lugar. A resposta é que, de uma maneira geral, não podemos prometer conseguir isto. Em certos casos temos sucesso em desenvolver as incipientes tendências heterossexuais que estão presentes em todos os homossexuais, mas na maior parte dos casos isto não é mais possível. Depende das características e idade do indivíduo. O resultado do tratamento não pode ser previsto.
O que a análise pode fazer por seu filho segue em outra direção. Se ele é infeliz, neurótico, torturado por conflitos, inibido em sua vida social, a análise pode lhe trazer harmonia, paz de espírito, completo desenvolvimento de suas potencialidade, continue ou não homossexual.
Se você decidir que ele deve fazer análise comigo - e eu não espero que isto aconteça - ele deverá vir a Viena. Não tenho intenção de mudar-me. De qualquer forma, não deixe de me responder,
Sinceramente,
Desejo-lhe boa sorte,
Freud"

Nesse ponto a psicanálise e a psicologia compartilham da mesma posição que orienta a direção de tratamento: que a homossexualidade não constitui patologia, distúrbio ou perversão, não havendo, portanto, uma cura para ela. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O sintoma na teoria Freudiana


Freud defendia que os sintomas neuróticos podiam ser decifrados, na medida em que tinham um sentido, da mesma forma que os atos falhos e os sonhos. O sintoma no sentido analítico, ou em sua significação clássica, quer dizer aquilo que é analisável na neurose. A possibilidade de interpretação advém do sintoma como portador de uma mensagem velada. Freud desenvolve o conceito de sintoma enquanto uma formação do inconsciente, nos textos “A interpretação dos sonhos” (1900-1901), “A psicopatologia da vida cotidiana” (1901) e “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (1905).

Em “A interpretação dos sonhos”, ele substitui a proposição neurofisiológica para explicar os processos mentais pela psicológica e introduz uma primeira formulação do conceito de inconsciente. Em seus estudos sobre a histeria ele percebe a existência de diferenças entre a paralisia motora e a paralisia histérica, e chega à conclusão de que a idéia é que paralisa o indivíduo e não um feixe de neurônios. A causa da paralisia histérica não podia ser explicada em termos da consciência ou em termos orgânicos, mas pela existência do inconsciente. Desta forma, Freud (1900-1901, p. 633) afirma que apesar do sonho não ser patológico, os processos que atuam em sua formação são análogos aos que atuam na formação dos sintomas histéricos, ou seja, ambos denotam uma formação do inconsciente.

Freud assinala que durante a vigília, o consciente domina os processos de funcionamento do aparelho psíquico através do princípio de realidade, impedindo que conteúdos inconscientes se manifestem. Contudo, como o representante-representação não pode se manifestar diretamente no consciente – devido à incompatibilidade com o sistema consciente– ele se manifesta de forma substitutiva, modificada, sofrendo condensações e deslocamentos, através de sonhos, lapsos e sintomas.

Os sintomas são, portanto, derivados do conteúdo recalcado que tiveram acesso à consciência, são manifestações do inconsciente que revelam a verdade encoberta pelo recalque. O recalque é uma repressão tão forte da sexualidade que cria obstáculos para que o sujeito a exerça livremente: “as excitações continuam a ser produzidas como antes, mas são impedidas por um obstáculo psíquico de atingir seu alvo e empurrada para muitos outros caminhos, até que consigam se expressar como sintomas” (Freud, 1905, p. 224) .

domingo, 5 de maio de 2013

A psicanálise do hiperativo e do desatento ...com Lacan

A psicanálise do hiperativo e do desatento ...com Lacan

O que os psicanalistas de orientação lacaniana têm a dizer sobre o diagnóstico de TDAH e seus efeitos sobre os sujeitos? Como o discurso analítico trata aqueles que foram nomeados como hiperativos e/ou desatentos? Essas são questões a que este volume se dedica. A psicanálise do hiperativo e do desatento ...com Lacan, segundo volume da coleção do IPSM-MG (Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais), insere-se na proposta de “abordar temas da atualidade que se constituem em desafios no nosso cotidiano” e apresenta ao público uma contribuição da psicanálise a esse debate.

O lançamento oficial da edição ocorrerá durante a realização do IX Congresso dos Membros da Escola Brasileira de Psicanálise, no Summerville Beach Resort, em Pernambuco, entre os dias 25 e 28 de abril de 2013.

domingo, 21 de abril de 2013

A capital mineira rejeita internação forçada, adotada por Rio e São Paulo, e aposta em política que tenta levar usuário a trocar pedra por álcool e tabaco, até se livrar do vício

Reportagem publicada em Correio Braziliense, 21 de abril de 2013
Por Sandra Kiefer
 
Belo Horizonte - Na contramão da lei que deveria ter sido votada na quarta-feira (18/4) no Congresso Nacional, que prevê a política de internação involuntária dos usuários de crack – já adotada este ano em São Paulo e Rio de Janeiro –, Belo Horizonte tem outra frente de trabalho para lidar com o desafio. Referência nacional da luta contra os manicômios, a capital mineira optou pelo modelo da redução de danos proposto pelo Ministério da Saúde, com a troca da pedra por drogas mais leves, como opiáceos, álcool e tabaco, até conseguir a abstinência total. Na prática, a iniciativa vem apresentando indicadores positivos no Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam-AD) da Região da Pampulha, com adesão de até 40% dos pacientes. O índice é oito vezes maior em relação aos 5% de recuperação obtidos, em média, com a internação dos dependentes químicos.

O problema é o tamanho do desafio e a capacidade de lidar com ele. Desde 2008, BH conta com apenas um Cersam-AD, o da Pampulha, para uma demanda de 2,2 mil moradores de rua, boa parte deles envolvidos com álcool e crack, segundo o Movimento Nacional de População de Rua. Diante da falta de atendimento, estão se formando pequenas cracolândias distribuídas pela cidade, até mesmo em bairros residenciais.

Apesar disso, só em último caso é aceita a internação do usuário de drogas em BH, segundo o secretário municipal de Saúde, Marcelo Teixeira. “É preciso ter clareza de que você pode internar alguém compulsoriamente, mas não pode tratar ninguém compulsoriamente. Ao dizer isso, não estou me posicionando contra a internação. Só defendo que a medida tem de ser eventual e avaliada do ponto de vista clínico”, afirmou.

Mistura

A reportagem do Estado de Minas constatou em vários pontos de uso de BH que muitos dependentes químicos passaram a fazer associação de diversas drogas. Em geral, fumam primeiro cigarros, tomando o cuidado de guardar as cinzas. Elas serão usadas para fazer render a pedra do crack, previamente triturada em porções menores. Antes de queimar a mistura nos cachimbos, os usuários tomam cachaça. “Diante dessa situação, o ponto central da redução de danos será o crack. Se o usuário conseguir largar primeiro o crack, ficando com o álcool e com o tabaco, e em seguida só com o tabaco, seria desejável dentro de uma estratégia de intervenção”, defende Marcelo Teixeira.
A meta do programa é conseguir diminuir os danos causados pela pedra no organismo, resgatando valores e vínculos, familiares ou não, de trabalho e da sociedade. Ao convencer o craqueiro a usar menos pedras por dia, em seguida substituir o vício por tabaco e permanecer apenas com o álcool, os técnicos de saúde ganham a confiança do usuário de drogas, que, ao mesmo tempo, será convencido a se comprometer com um emprego, a resgatar a convivência com os filhos e a retomar hábitos de higiene. Na visão da prefeitura, é o oposto de isolar o usuário de drogas dentro de uma entidade, como já foi feito no passado com doentes mentais, hansenianos e tuberculosos.

Para tentar garantir o sucesso do projeto, além de abordar os usuários de crack por meio das equipes de consultório de rua, oferecendo camisinhas gratuitas e a chance de tirar uma nova carteira de identidade, a PBH está fechando parceria para garantir vagas de emprego subsidiadas, com entidades empresariais como Fiemg e Fecomércio. Além disso, há a proposta de criar duas equipes de abordagem familiar, que visitarão dentro de casa, antes de irem morar nas ruas, dependentes químicos prestes a cortarem os laços com mulheres e filhos. “Quando estiver todo implementado, nosso programa vai ser um dos mais completos do país”, aposta o secretário.

Ponto crítico: você é a favor da internação compulsória?

- Domingos Sávio Lage Guerra, psiquiatra, ex-diretor do Instituto Raul Soares e professor da Faculdade de Ciências Médicas
Sim:
A dependência de crack é muito grave e o sujeito não consegue parar. A droga está devastando o Brasil, aumentando a criminalidade e trazendo um sério problema de mão de obra para o país, repercutindo na construção civil e no comércio. O crack está comprometendo a população jovem. Temos 35 milhões de jovens e um contingente expressivo deles está dependendo do crack, que está destruindo famílias. Também a população de rua está aumentando muito, bem como a quantidade de roubos, furtos e assassinatos relacionados ao uso dessa droga, que é muito mais potente que a cocaína. O estrago provocado pelo crack é muito grave. Seu uso deixa o sujeito paranoico, agressivo e agitado. A entrega à dependência é grande, os usuários estão em risco social e em grave risco de mendicância, com a perda dos vínculos sociais. Só quem tem um usuário de crack dentro de casa pode realmente falar sobre o assunto.

- Alda Martins Gonçalves, professora da Escola de Enfermagem da UFMG, integrante do Centro Regional de Referência em Crack e Outras Drogas
Não:
O uso do crack é um problema individual, familiar e coletivo. O usuário acaba perdendo seu espaço na família e buscando na rua a convivência com outros na mesma situação, o que constitui um grande desafio para a implantação de medidas de atenção aos grupos e de uma política de atendimento aos usuários. O Serviço de Saúde Mental da Prefeitura de BH vem atendendo e buscando a adesão dos dependentes ao tratamento. A abordagem procura ajudá-los a recuperar a autoestima, os laços familiares e a convivência social, para que aceitem o processo de recuperação. Simplesmente internar um usuário não garante sua adesão ao tratamento e pode esbarrar no direito ao livre arbítrio. Se uma pessoa está em risco de morte, intoxicada por drogas, não há que se perguntar se ela quer ser socorrida. O socorro tem de ser prestado, mesmo que exija internação. Isso não significa internação compulsória. Não há garantias de que, depois da desintoxicação, o usuário de drogas vá aceitar o tratamento.

sábado, 16 de março de 2013

Notas sobre a Neurose e a Psicose do livro "O saber delirante" – J.A Miller


Quando comumente se fala que na psicose o sujeito está fora da realidade, ou há uma perda da realidade, é importante retomarmos Freud em suas considerações nos textos “neurose e psicose” e “perda da realidade na neurose e na psicose”.
Freud assinala que tanto na psicose como na neurose há uma perda da realidade. O que difere em relação às duas estruturas é em relação a forma de se reconstruir a realidade. Enquanto o neurótico a faz pela fantasia, o psicótico a faz pelo delírio.
O paranóico edifica de novo a realidade mediante o trabalho de seu delírio, “o que nós consideramos a produção patológica, a formação delirante, é, em realidade, a tentativa de restabelecimento, a reconstrução”.
Esse é um ponto crucial para o tratamento de psicóticos, considerar o delírio como uma tentativa de dar um tratamento ao real, uma tentativa de cura, de construção de uma suplência. Assim, nós, analista, estamos ali, ao lado dos psicóticos, a fim de ser seu secretário, testemunhas de uma reconstrução delirante, de uma nova realidade que os permite suportar o real que os invade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um novo amor pelo pai.


Éric Laurent, no artigo “Um novo amor pelo pai”, publicado na Opção Lacaniana n°46  situa o avesso da pluralização do Nome-do-Pai: o pai avaliado do ponto de vista de sua autoridade. “Acabou-se o pai da autoridade, da tradição, do patriarcado, da Lei. É chegado o tempo da paternidade contratual, negociada, responsável” (p.20).

Segundo Laurent, Lacan desconstruiu o “pai” freudiano segundo as dimensões real, simbólica e imaginária. O primeiro Nome-do-Pai em Freud foi o pai do totem, apresentado no texto “Totem e tabu”. Nesse texto Freud fala de um pai simbólico, pai de amor, e de um pai imaginário, do ódio e da reprovação.

Já Lacan, após propor a pluralização dos nomes do pai em sua obra, a partir do Seminário A angústia, se propõe a definir o Nome-do-pai a partir de uma função, ou seja, há versões do pai, uma por uma. Assim “não se trata mais de partir do nome, mas sim do objeto a” (p.23). Essa péreversion, versões do pai, ou perversões do pai, tratam tanto de que há uma versão do pai para cada sujeito em particular, como uma perversão do pai de se ligar aos objetos a de uma mulher. Um pai-versamente orientado é aquele que faz da mulher seu objeto a causa de desejo. Enquanto a mulher se ocupa de outros objetos a: os filho. Na medida em que o pai se liga aos objetos a de uma mulher é que “podemos falar de um entrecruzamento da pai-versão com a perversão materna” (p.23) e assim surge o chamado “cuidado paterno”, o cuidado que o pai tem com esse objeto a da mulher.