quarta-feira, 14 de julho de 2010

GOZO SADIANO OU GOZO IMPOSSÍVEL: CONTRIBUIÇÕES PARA A ÉTICA DA PSICANÁLISE

Em Kant com Sade, Lacan (1962) retoma Sade para apontar que ele faz aparecer a verdade escondida em Kant: que o sujeito não é UM, e sim dividido. O grafo do fantasma sadiano demonstra uma “divisão contínua do sujeito que é ordenada pela experiência” (ibidem, p. 785) e não mais pela razão pura, assim como defendia Kant.

Sade apresenta essa divisão através da dialética entre a vítima e o carrasco. Ao defender que é a vítima que atribui o gozo ao Outro ele assinala que há algo mais além da lei e do desejo que determinam essa relação: o gozo. O gozo nesse momento do ensino de Lacan surge como gozo real, impossível, que só é alcançado através da transgressão, assim como o faz Sade. Segundo Sade as vontades do sujeito não correspondem a um bem universal, e o imperativo superegóico não é mais de proibição. A máxima sadiana promove o imperativo do gozo “Tenho o direito de gozar de teu corpo, pode dizer-me qualquer um, e exercerei esse direito, sem que nenhum limite me detenha no capricho das extorsões que me dê gosto de nele saciar” (ibidem, p. 780).

Com o objetivo de esclarecer a relação entre o desejo, a lei e o gozo, Lacan (1959-60: 237) em O seminário, Livro 7: A ética da psicanálise, retoma o mandamento “amarás ao próximo como a ti mesmo”. Esse mandamento nos remete aos fenômenos caracterizados como “estranhos”: uma distância íntima entre o sujeito e o Outro, que faz com que o Outro se apresente em duas faces – assim como nos elucida Julien (1996) –uma feita a nossa imagem e semelhança, e outra face que está além do semelhante, que compreende o real da Coisa, das Ding. Podemos incluir essa segunda face na dimensão do mais-além do princípio do prazer, de algo que não está subordinado à lei do bem, mas sim ao enigma do gozo do Outro. Cumprir esse mandamento é impossível, pois amar ao próximo é se aproximar do que nos é mais estranho, mas ao mesmo tempo mais próximo, ou seja, cumprir esse mandamento é se aproximar do gozo. Desse modo, o recuo diante do mandamento “amarás ao próximo como a ti mesmo”, é o mesmo diante do gozo. O sujeito recua, portanto, diante da imagem do outro que carrega um furo, do outro castrado que o remete a sua própria castração.

O termo freudiano das Ding – A Coisa – significa o objeto que está para sempre perdido e por isso mesmo marcado pela eterna busca de reencontrá-lo. Esse movimento, ligado à busca da coisa perdida que falta no lugar do Outro, é causa de sofrimento, que nunca erradica por completo a busca do gozo. Ao considerar das Ding como gozo real, fora do sistema, afirma, portanto, que só temos acesso a este através de um forçamento, por via da transgressão à Lei. O gozo de Sade seria a expressão dessa transgressão, na medida em que ele tenta permanentemente ultrapassar os limites do princípio de prazer, transgredir a lei, transgredir “todos os limites humanos” (ibidem, p. 245).

Miller (2000: 91) em Os seis paradigmas do gozo equivale o gozo real, impossível, ao gozo sadiano, trata-se de uma satisfação verdadeira, que não se encontra no registro simbólico ou no imaginário, posto que é da ordem do real. Segundo ele, se a Lei moral de Kant é um enunciado simbólico que comporta a anulação de todo o gozo em prol de um bem universal, Sade é aquele que fala de uma satisfação que está mais além do princípio do prazer e mais além do simbólico, fora de todo significante e do significado.

Essas pontuações oferecem contribuições importantes para pensarmos a Ética da Psicanálise, assim como Lacan pontua no capítulo “o gozo da transgressão” do seminário A ética da psicanálise. Podemos aqui tentar pensar com Lacan: como a clínica psicanalítica pode se servir da proposta de Sade?

Essa é uma discussão que merece ser levada a frente, pois não é raro vermos em nosso campo profissionais que desconsideram a dimensão do real e do gozo presentes na clínica. A psicanálise nos ensina que não podemos nos basear em universais do bem como guia de tratamento na experiência analítica; contrária a universalização a psicanálise propõe a singularidade, e considera que os objetos se tornam desejáveis de acordo como cada um se serve da fantasia.

Aqui uma citação de Lacan nos ajuda e nos instiga a continuar essa discussão:

O que o analista tem a dar, contrariamente ao parceiro do amor, é o que a mais linda noiva do mundo não pode ultrapassar, ou seja, o que ele tem. E o que ele tem nada mais é do que seu desejo, como o analisado, com a diferença de que é um desejo prevenido. O que pode ser, propriamente falando, o desejo do analista? Desde já, podemos no entanto dizer o que ele não pode ser. Ele não pode desejar o impossível (Lacan, 1959-60: 360)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

JULIEN, Philippe (1996). O estranho gozo do próximo: ética e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
LACAN, J. (1959-60). O seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
_________ (1962). “Kant com Sade”. in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
MILLER, J-A (2000). Os seis paradoxos do Gozo. In La cause freudiene nº43.

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